01/06/2026
Esta menina sempre quis ocupar espaço. Esta menina sempre quis encontrar o seu lugar.
Queria cantar em voz alta (e precisava de plateia), brincar às lojas e às cozinhas com avental, estudar com os cotovelos bem abertos na mesa, passou horas e horas a desenhar casas e a escrever. E foi percebendo, devagar, que havia espaços onde cabia e espaços onde lhe diziam que era demais.
Houve um dia em que alguém partiu e a sala de casa ficou vazia. Os móveis desapareceram, ficou só a televisão no chão, a ausência e uma mão cheia de recordações. Uma criança que vê uma sala despida, aprende cedo que os lugares que deviam ser seguros, podem esvaziar-se de um momento para o outro. E se não estás segura em casa, onde podes estar?
Aprendeu a encolher. Não de um dia para o outro mas aos poucos.
Hoje sou eu, adulta, estudei arquitetura como sempre quis, ainda canto quando a vida me convida a fazê-lo. Construí uma vida, um trabalho, um método. E ainda assim há dias em que essa criança toma conta do comando. Quer fazer só o que lhe apetece. Foge do que é preciso. Resiste ao que está a construir, mesmo quando esse construir é o que mais quer.
Sei que não sou só eu. Sei que há quem se reconheça nisto. Mulheres que já provaram do que são capazes e mesmo assim travam, fogem e adiam.
Trabalho com casas porque sei o que os espaços fazem a quem os habita. Sei o que f**a gravado, sei o quanto demora a sair e sei que para mudar o que está dentro passa, também, por mudar o contexto.
Feliz dia da criança para todas as crianças que ainda vivem, e viverão, sempre em nós.