21/06/2025
Casa de Sá
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Num território marcado por lotes vazios e pela presença anónima de edifícios de habitação indiferenciados, construídos na transição para o século XXI, entrecortado aqui e ali por sobrevivências das décadas que ladeiam a viragem para 1900, a Casa de Sá ergue-se como gesto afirmativo, com uma retórica clara: estabelecer um diálogo atento com o lugar e com a sua história construída, mas reivindicando também o seu direito à contemporaneidade e à autonomia formal.
Sempre foi assim que se fez cidade -em camadas, em sobreposições, em revisitações- e é precisamente dessa estratificação de vozes e de épocas que nasce a riqueza da experiência urbana: Aveiro, nesse sentido, é paradigma dessa condição palimpséstica.
Essa condição é, portanto, fundamental para a construção de cidade com futuro: tal como o pastiche do passado dificilmente recolhe hoje reconhecimento crítico, também o pastiche do presente, ao desenhar uma cidade postiça, tenderá a não resistir ao escrutínio do tempo.
A Arte Nova, aquando do seu surgimento, foi objeto de crítica acesa, tida por excessiva, funcionalmente inútil, dispendiosa, desfasada das exigências da modernidade emergente. Foi prontamente suplantada pela Arte Déco e pelo pragmatismo racional do Movimento Moderno, e sistematicamente apagada (física e simbolicamente) sem hesitação. Só na segunda metade do século XX começaria a ser revalorizada.
A celebração do passado mais remoto e a inferiorização do presente (e do passado mais recente) constituem, aliás, uma pulsão recorrente na história da nossa civilização, mas não por isso menos equívoca.
Mais do que um edifício, a Casa de Sá propõe-se como ensaio sobre continuidade e pertença, deixando pistas para intervenções futuras: um gesto onde a memória e o presente se tocam sem ruído, e onde a arquitetura se oferece como ferramenta de escuta -ao passado, à rua, à cidade, à vida quotidiana e às suas circunstâncias.
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