30/10/2024
Agrotóxico, sim senhor
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No Brasil, quatro termos têm sido empregados para indicar os produtos usados no controle de pragas: praguicida, pesticida, biocida e defensivo agrícola.
O termo praguicida significa “produto que mata pragas”. O que uma praga é já foi definido em capítulo anterior. De maneira geral, o termo praguicida tanto se aplica a insetos quanto a ácaros, carrapatos, moluscos, ratos etc. Evidentemente, sob essa definição apenas as substâncias químicas capazes de matar pragas são consideradas praguicidas, sendo excluídas as substâncias atraentes, repelentes, esterilizantes e outras que igualmente contribuem para controlar pragas.
Defensivo, segundo Mariconi, “é toda substância química empregada para:
a) combater as pragas ou doenças das plantas;
b) combater as plantas daninhas;
c) combater os insetos e ácaros nocivos aos animais domésticos;
d) combater as pragas dos produtos armazenados, sejam estes de origem vegetal ou animal.”
A denominação pesticida (do inglês pesticide), já muito difundida entre nós, é totalmente inadequada à nossa língua. Literalmente ela significa “o que mata peste”, e peste, segundo os dicionários da língua portuguesa, é “qualquer doença epidêmica grave, de grande mobilidade e mortalidade”. Portanto, peste tem o sentido mais de uma doença do que de uma praga, o que torna o anglicismo errôneo para o significado que se deseja exprimir.
A palavra praguicida, embora mais adequada etimologicamente, está longe de traduzir a realidade que os seus termos parecem indicar. Implícito na definição está o fato de que os organismos se acham divididos em pragas e não pragas, e que os praguicidas matam apenas pragas e nada mais. Esse conceito, que poderia ser aceito na época em que a ecologia não existia como ciência, não mais o é na atualidade. O problema então é a busca de um termo para aquilo que hoje chamamos praguicida que traduza uma realidade ecológica. Hardin afirma que “todo novo praguicida deveria realmente chamar-se biocida, até que fosse provado o contrário; culpado, até que fosse provado inocente”. De fato, a palavra praguicida esconde dos usuários e leigos os efeitos colaterais indesejáveis que aquelas substâncias produzem. Biocida, por outro lado, é uma denominação mais realística, embora desinteressante para os homens de negócio.
A palavra defensivo, usada com sentido mais amplo para incluir não apenas pragas mas também agentes patológicos, é outra incoerência, uma vez que, como mostramos com vários exemplos, muitos desses agentes químicos, entre os quais o grupo todo dos clorados persistentes, são na realidade causadores de maiores e mais graves ataques de pragas, pelos desequilíbrios biológicos que produzem; como então chamar de defensivo algo que também pode agir no sentido de agravar a situação da agricultura e diminuir os lucros dos agricultores? O termo defensivo (defensa + ivo) significa “próprio para defesa”, mas não indica defesa de que ou de quem; se é defensivo agrícola, então a defesa é a dos produtos agrícolas, o que ecologicamente é uma utopia, como mostrado anteriormente; se é a defesa do homem contra as pragas, o sentido é também ambíguo, uma vez que o homem dos dias presentes não mais se põe em posição de defesa, mas, sim, de ataque maciço contra as pragas, que são frutos da sua própria inventividade. Quando pensamos em termos da natureza, tais produtos não podem ser encarados como instrumentos de defesa, mas de destruição e perturbação do equilíbrio da biosfera.
Pela ausência de uma terminologia mais adequada, e pelo uso generalizado que tem, o vocábulo praguicida continuará sendo usado entre nós, como pesticida o será pelos povos de língua inglesa. Uma sugestão é o termo agrotóxico, que tem sentido geral para nomear todos os produtos químicos usados nos agroecossistemas para combater pragas e doenças. O termo é uma contribuição útil, já que a ciência que estuda esses produtos chama-se toxicologia.
In: Pragas, Agrotóxicos e a Crise Ambiente. Problemas e Soluções. Adilson Dias Paschoal. O livro pode ser adquirido na editora Expressão Popular:
https://expressaopopular.com.br/livraria/9788577433711pragas-agrotoxicos-e-a-crise-ambiente-problemas-e-solucoes/