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05/08/2021

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O samba é também território de/da memória ancestral. Memória essa que veio carregada dentro dos corpos tambor trazidos a...
24/01/2021

O samba é também território de/da memória ancestral. Memória essa que veio carregada dentro dos corpos tambor trazidos a força de África pras bandas de cá. 

Nas filosofias africanas, diversas em sua unidade filosófica, só há morte quando há esquecimento. E como nos diz o autor Luiz Rufino (2019): combater o esquecimento é uma das principais armas contra o desencante do mundo. É sempre bom lembrar, e Nei Lopes nos lembra com encantamento ritmado que o samba veio de muito longe [...] de emoções ancestrais (música “Samba de fundamento”). ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

“Quando ouvia samba sentia saudade da roda de samba, mesmo sem nunca ter ido em uma. Também ouvindo samba, sentia saudades de ir no terreiro, mesmo sem nunca ter ido num terreiro antes [...]” (Registro pessoal, 16/04/20). 
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Enquanto houver ouvidos atentos e abertos, e peitos decifradores da gramática do tambor, herdada através da memória corporal ancestral, o samba disputará todo tipo de espaço, e todo tipo de possibilidade de ser. 

Disputará alegria. 
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“Pedagogia das Encruzilhadas'', Luiz Rufino (p. 16, 2019)” .luiz7

Texto de Juliana Faltz para a .urb

“Licença, que eu vou cantar porque cantar é uma benção”* ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀E quem faz e canta samba sempre soube, sempre sabe, que...
24/01/2021

“Licença, que eu vou cantar porque cantar é uma benção”* ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

E quem faz e canta samba sempre soube, sempre sabe, que a voz é sentença de prender ou libertar (Nei Lopes, 2014). Sabe, porque o samba é ancestral, veio da África pra cá nos terríveis navios negreiros. E por isso, é impregnado da filosofia africana e afro-diaspórica, e quem carrega esse modo de pensar, de viver, estar no mundo, sabe que o Verbo, além de poder criador, possui a função de preservar, destruir, e recriar o mundo (Nei Lopes, 2020). ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Antes do samba chamar samba já existia como expressão cosmológica de um povo que “canta e dança a noite pra poder tá mais forte de dia” (música “Livro da Selva, Thiago Elnino). O samba passou a existir enquanto fenômeno cultural marginal brasileiro no início do século XX (Nei Lopes, 2019); porque o mundo colonizador, branco, eurocristão, capitalista, ocidental, moderno, binário, não bastava, não dava, e não dá, conta de lidar com as complexidades do Ser. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Por ser tão ferrenho, e potente, o samba é tão boicotado midiaticamente. Por isso é tão barrado de adentrar os espaços de cultura legitimadas nesse Brasil colônia, por isso, principalmente, é tão perseguido, e tão distante da escola. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Como estratégias de defesa o samba, que é o próprio povo afro-brasileiro, criou espaços físicos de resistência contra a colonização cultural, para emanação de conteúdos cravados nas raízes africanas dinamizadas aqui no Brasil: os terreiros e as escolas de samba. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Terreiros e escolas de samba amalgamaram-se. Nos terreiros o povo negro reencanta o mundo, descarrega o assombro colonial do mundo desencantado. Nos terreiros cura-se doenças de um povo que tem negado, historicamente, seu acesso ao Direito a políticas públicas de saúde. Nos terreiros encontra-se amor e afeto também historicamente negados, a quem não era visto como Ser, mas como mão de obra, apenas.
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Nesse chão de encante dobra-se todo e qualquer tipo de morte. Nos terreiros está o samba, ou vice e versa. No samba sagrado e profano se misturam.Tudo é profano, tudo é sagrado.
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“Nunca se falou tanto em escola, gente boa! Escola pra lá, escola pra cá! Aí, de repente, a gente chamava os blocos de carnaval de “escola”. Escolas de Samba!” (Nei Lopes, 2012). As escolas de samba são, também, a luta do povo negro contra seu acesso negado ao Direito de serem beneficíarios de políticas públicas educacionais. As escolas de samba organizam-se e destacam-se em um período, ainda inacabado, de luta por acesso à escola, e não a qualquer escola.
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A luta por um espaço educativo que reconheça a importância e contribuição africana para cultura brasileira, uma escola que conta, com orgulho, a história do Brasil, uma escola que não mate por dentro (música “Pedagoginga” Thiago Elninõ).
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Uma escola que seja boca que tudo come, inclusive comedora de sabedoria das entidades de terreiro. Espaço que além de outras linguagens, ensina a gramática do tambor, que com o toque chama Oxossi, como o da Mocidade Independente de Padre Miguel (Luiz Antonio Simas, p. 30 2019).
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As escolas de samba gingam por uma escola que pulse vida. Por uma escola onde o maior pedagogo seja Exu. “Mensageiro, guardião Senhor dos quatro elementos Me dê seu consentimento Pra eu cantar nessa função.”*
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Laroyê!
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*Poesia "licença!" autor Nei Lopes, livro Poétnica, 2014.
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Bibliografia:
“Filosofias Africanas”, Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, 2020.
“Dicionário da história social do Samba”, Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, 2019.
“Pedagogia das Encruzilhadas”, Luiz Rufino, 2019.
“A lua triste descamba”, Nei Lopes, 2012.
“O corpo encantado das ruas”, Luiz Antonio Simas, 2019.

Texto de Juliana Faltz para a .urb

Imagem: Inter

O samba é disputa corporal. É a insistência em sorrir de uma gente que mesmo sofrida, cai no samba a noite inteira (músi...
24/01/2021

O samba é disputa corporal.

É a insistência em sorrir de uma gente que mesmo sofrida, cai no samba a noite inteira (música “Iemanjá, desperta”, do Martinho da Vila).

O samba é a mulher negra que leva o chocalho dentro dela. (Música “Morena” de Angola, do Chico Buarque).

O samba é o axé nos dias de depressão, é tecnologia de nivelar a vida em alto astral (música “Sorriso aberto”, cantado por Jovelina Peróla negra).

O samba é a disputa narrativa contra as prisões nos armários, sem medo, como fez Leci Brandão, mulher sapatão, na música “Deixa pra lá”.

O samba é disputa política contra a colonização e o capitalismo destroçadores de gente. Dividir para todo mundo melhorar é o que sugere Elton Medeiros, em “A maioria sem nenhum”.

O samba é a conscientização de que a favela nunca foi reduto de marginal. A favela é um problema social, como bem dito em “Eu sou a favela” do Bezerra da Silva.

O samba é a denúncia da transformação reducionista, no capitalismo, dos nossos corpos em mão de obra, matéria. Nos impõe virarmos números de identidade como canta Ederaldo Gentil, em “Identidade”.

O samba é a luta contra a hierarquia, gingada por Paulo César Pinheiro em “Toque de São Bento Grande de Angola”.

O samba é a luta do povo negro para acessar a universidade, em não ser rei só na folia, como lutou cantando a vida inteira Candeia em “Dia de Graça”.

O samba é a sabedoria da malandragem em “Conselho” de Almir Guineto.
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O samba é saber que um amor que morre é ilusão, que bom mesmo é ter “Coração vulgar” (Paulinho da Viola), que não tem medo de amar por medo da dor.
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O samba é a luta para não ter o pensar embranquecido, Jorge Aragão trava a luta epistemológica em “Identidade”.
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O samba é o registro historiográfico cantado da história de um povo que os livros de História não fazem questão de contar, é a lembrança em “Pequena memória para um tempo sem memória” (Elza Soares/ Gonzaguinha) que quem construiu esse país, sua história, foi gente anônima.
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O samba é a missão de quem luta contra a tirania. (“Minha missão”, composição João Nogueira/ Paulo César Pinheiro, cantada pela guerreira Clara Nunes).
O samba é um eterno embalo de Mãe menininha e de Clementina de Jesus, em “Embala eu”.
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O samba é o não temer a morte por saber que “É doce morrer no mar”, como (re)encanta Caymmi.
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O samba é o feitiço de Cartola de transmutar a dor em beleza.
Samba é reza, e Nelson Cavaquinho rezou forte em “Juízo Final”.
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O samba é uma coisa de dentro, como filosofa e poetiza Nei Lopes, em “Samba de Fundamento”.
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O samba é guerreiro. (Samba Guerreiro, composição Toninho Geraes, cantado por Dona Jovelina).
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O samba é a estripulia de querer morrer no carnaval. O samba é Elza Soares. É o corpo que festeja na rua.
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O samba não morre. É o duelo entre o corpo e a morte (Luiz Antonio Simas, 2019)*
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*A palavra carnaval foi substituída por samba.
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“O corpo encantado das ruas” (p.110, 2019).

Texto de Juliana Faltz para a .urb

Imagem: Internet

O trauma colonial permanece nos ataques aos corpos marcados pelos traços da diferença, na edificação de um modelo de raz...
14/01/2021

O trauma colonial permanece nos ataques aos corpos marcados pelos traços da diferença, na edificação de um modelo de razão monológica e de um modo de linguagem que não comunica, pois tem ânsia de silenciamento. O trauma permanece na produção incessante de desigualdade que nutre os privilégios e Prazeres de uma minoria.

Flecha no tempo / Luiz Antonio Simas, Luiz Rufino.- 1. ed. - Rio de Janeiro : Mórula, 2019. pág. 13.
luiz7

"A colonização (pensamos a colonização como fenômeno de longa duração, que está até hoje aí operando suas artimanhas) ge...
14/01/2021

"A colonização (pensamos a colonização como fenômeno de longa duração, que está até hoje aí operando suas artimanhas) gera "sobras viventes", gentes descartáveis, que não se enquadram na lógica hipermercantilizada e normativa do sistema. Algumas "sobras viventes" conseguem virar sobreviventes. Outras, nem isso. Os Sobreviventes podem virar "supraviventes"; conceito que utilizamos para definir aqueles que foram capazes de driblar a própria condição de exclusão (as sobras viventes), deixaram de ser apenas reativos ao outro (como sobreviventes) e foram além, inventando a vida como potência (supraviventes). Uma disputa operada apenas no campo da política e da economia pode gerar ganhos efetivos, é claro. Mas o salto crucial entre a sobrevivência e a supravivência demanda também, além daqueles, um enfrentamento epistêmico e batalhas árduas e constantes no campo poderoso da elaboração de símbolos."

Fogo no mato: a ciência encantada das macumbas / Luiz Antonio Simas, Luiz Rufino. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Mórula, 2018. pág. 111.
luiz7

"O colonialismo, como espectro de terror, política de morte e desencanto que se concretiza na bestialidade, no abuso, na...
14/01/2021

"O colonialismo, como espectro de terror, política de morte e desencanto que se concretiza na bestialidade, no abuso, na produção incessante de trauma e humilhação, é um corpo, uma infantaria, uma máquina de guerra que ataca toda e qualquer vibração em outro Tom. Assim, entoa-se a questão: quais são as possibilidades de ser em um estado radicalizado na violência?"

Flecha no tempo / Luiz Antonio Simas, Luiz Rufino.- 1. ed. - Rio de Janeiro : Mórula, 2019. pág. 12.
luiz7

Artigo em Coautoria com: Ekedy Denísia Martins BorbaDoutoranda do Programa de Pós-Graduação em Patrimônio Cultural e Soc...
14/12/2020

Artigo em Coautoria com:

Ekedy Denísia Martins Borba
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Patrimônio Cultural e Sociedade, Universidade da Região de Joinville. Joinville/Santa Catarina.


Ekedy Ana Paula Peixoto Saraiva da Silva
Pós-Graduada em Estudos Africanos e Afro brasileiros, Universidade Católica de Minas Gerais.

Revisão: Ekedy Nayara Garófalo

Publicado na Revista África e Africanidades

Disponível em: https://bit.ly/ArtigoIleWopoOlojukan

Visando quebrar preconceitos relativos aos diferentes sistemas religiosos vinculados à cultura de matriz africana, o Ilé Wopo Olojukan propôs, (...) o Ilé além de um bem cultural da capital mineira, é compreendido como um importante espaço de sociabilidade e de ancestralidade a ser conhecido pela comunidade em geral. Ancestralidade essa que, segundo Oliveira (2012), está além de uma condição de herança genética. Conforme o autor, trata-se da reunião das diversas experiências traduzidas na forma de um código de ética, que define as atitudes das comunidades de candomblé, mantendo sua conexão histórica e simbólica com todos os irmãos espalhados internacionalmente, nos mais diversos territórios. (pág 178)

(...)

Ao fim da análise, busca-se identificar quais são os impactos dessa correlação de forças na comunidade a partir do seu tombamento, bem como o valor simbólico da alimentação para a continuidade de matriz africana e os projetos de valorização do território e suas práticas culturais, não somente do ponto de vista enquanto pesquisadores que não dispensam os referenciais teóricos já consolidados, mas também como integrantes da comunidade em que pese o conhecimento ancestral do Bàbálórìsà do Ilé Wopo Olojukan, Sidney (2020).

O Ilé Wopo Olojukan é o primeiro terreiro de Candomblé de Belo Horizonte, fundado em 1964 e reconhecido como patrimônio ...
14/12/2020

O Ilé Wopo Olojukan é o primeiro terreiro de Candomblé de Belo Horizonte, fundado em 1964 e reconhecido como patrimônio cultural da capital mineira em 1995 (PBH, 1995, no prelo). O referido terreiro está localizado no bairro Aarão Reis, Zona Norte da cidade. É vinculado à tradição Ketu, antigo reino yorùbá situado na República do Benin, antigo Daomé e Togo, como apresentam Kileury e Oxaguiã, 2009, [s/p], e está na segunda geração de direção sacerdotal, considerando que o sacerdote fundador do Ilé, Carlos Olojukan, faleceu em 1997 e seu herdeiro, Sidney (2020), assumiu a direção da comunidade em 1999 (PBH, 1995, no prelo).

(...)

RESUMO: A história do Candomblé no Brasil se confunde com a própria história da colonização e desenvolvimento do país, que se fundou sob a égide da escravidão. Os africanos escravizados não contribuíram apenas com a força de trabalho, mas também com todo o seu arsenal cultural. Nesse sentido, em nosso cotidiano temos a presença cultural negra identificada no vestuário, no vocabulário, na música, na alimentação e em práticas de fé. Uma questão intrigante é que essa cultura permaneceu na invisibilidade institucional estatal, no que se refere ao patrimônio cultural, até meados da década de 1980, quando acontece o primeiro tombamento, em âmbito nacional, de um terreiro de Candomblé. Entende-se que o reconhecimento por parte do poder público não garante a sobrevivência ou a permanência nem dos bens vinculados à pedra e cal, nem dos bens de natureza processual. Em 1995, o Ilé Wopo Olojukan, em Belo Horizonte, foi reconhecido como patrimônio cultural da capital mineira e, analisando as legislações específicas do patrimônio cultural em âmbito nacional e municipal, bem como o dossiê de tombamento do referido terreiro, busca-se compreender os impactos desse reconhecimento para a comunidade, bem como sobre os meios pelos quais a referida comunidade atua na proteção e difusão de suas práticas culturais.

Artigo em Coautoria com: Ekedy Denísia Martins BorbaDoutoranda do Programa de Pós-Graduação em Patrimônio Cultural e Soc...
14/12/2020

Artigo em Coautoria com:

Ekedy Denísia Martins Borba
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Patrimônio Cultural e Sociedade, Universidade da Região de Joinville. Joinville/Santa Catarina.


Ekedy Ana Paula Peixoto Saraiva da Silva
Pós-Graduada em Estudos Africanos e Afro brasileiros, Universidade Católica de Minas Gerais.

Revisão: Ekedy Nayara Garófalo

Publicado na Revista África e Africanidades

Disponível em: https://bit.ly/ArtigoIleWopoOlojukan

(...) Em uma abordagem orientada pela vivência de chão de terreiro, tomada a partir da experiência da família de àse, o espaço “Mato” envolve todo o complexo do Ilé e não apenas o espaço “Mato”, que foi delimitado apenas à parte posterior do bem cultural pelo corpo técnico da Prefeitura (PBH, 1995, no prelo). Isso se dá porque o paisagismo, que se optou por nomear de “Jardim Sagrado”, adquire sua identidade a partir da função desempenhada pelos espécimes no culto aos Òrìsà e apresenta elementos de baixo, médio e grande porte, como é o caso das ervas, folhagens e arvoredos. Observa-se, portanto, que o espaço “Mato” se expande para além das delimitações formais definidas pelo corpo técnico institucional no momento em que se identifica o cultivo de plantas rituais entre os Ilé Òrìsà inseridos no espaço “urbano”, o que resulta numa relação harmônica e complementar entre ambos os espaços derivando num efeito estético beneficiado pela presença ativa de folhas votivas. (pag 183)
..

A sua conquista mais recente foi a Deliberação nº 039/2020 (BELO HORIZONTE, 2020), resultado da somatória de forças do egbé Olojukan e da Prefeitura de Belo Horizonte. Através desta deliberação, diretrizes de proteção sobre o perímetro de entorno do terreiro foram firmadas, como a definição de altimetria máxima de 7,5 m para novas construções no perímetro; afastamento de 5 m dos limites do terreno; obrigatoriedade de vegetação arbórea nos terrenos adjacentes, criando um pano verde a fim de garantir privacidade; e estabelecimento da obrigatoriedade de aprovação prévia do DPCA sobre intervenções em todo perímetro. (pág 181)

“A natureza dessa tristeza se tomará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma ...
24/11/2020

“A natureza dessa tristeza se tomará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma relação de empatia. A resposta é inequívoca: com o vencedor. Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um MONUMENTO DA BARBÁRIE. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura.”

Walter Benjamin em Sobre o Conceito de História - Tese 7

A construção do conceito de belo, como já abordado pelos autores referenciados, se orienta por uma construção coletiva d...
24/11/2020

A construção do conceito de belo, como já abordado pelos autores referenciados, se orienta por uma construção coletiva de valores empíricos e teóricos de uma coletividade, dialogando com a construção cultural e social daquela localidade. Paralelamente, existem valores que nos são impostos pela construção hierárquica da sociedade, e portanto se afirma numa escala ascendente entre quem determina os valores estéticos vigente e a grande massa que os consome como resultado do investimento financeiro e das jogadas de marketing dos meios de produção.

A cidade e seus monumentos são resultado dessa correlação de forças, afinal, a monumentalização dos ideários de beleza e cultura são um constructo dos períodos históricos em que pese os vencedores no estabelecimento de uma história coletiva, correlata à um ideal de memória antagônico aos vencidos. Fato que Benjamin chamou de “Monumentos de Barbárie”.

Os monumentos patrimonializados na capital belohorizontina, em sua grande maioria, reforçam um ideal de poder pautado nos estilismos oriundos do sistema colonial euroreferenciados, capitalizados pelo ideário de brancura  e supressão das manifestações artisticas e sociais das comunidades tradicionais resultantes dos povos indígenas e dos negros escravizados que estabeleceram assentamento na região.

Tal contexto, possibilita que, em pleno 2020, uma obra de arte seja passível de destruição, devido ao entendimento enviesado do que é belo, em que a argumentação apresentada se baseie na expressão “não é uma simples pintura, é uma decoração de gosto duvidoso”.

Cabe ressaltar que tal obra se referência na estética negra e indígena, pautando a ancestralidade, o poder feminino e a valorização de símbolos de uma população sempre estigmatizada na construção da identidade brasileira.

A obra de autoria da artista , realizada em 2018, por intermédio do Festival .art, intitulada “Híbrida Ancestral - Guardiã Brasileira” por sí só, já quebra uma série de paradigmas. É street art, movimento marginalizado pelo estigma negativo atribuído ao grafite e pixo; resgata signos identitários de povos originários;

Continua...

Endereço

Belo Horizonte, MG

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