24/01/2021
“Licença, que eu vou cantar porque cantar é uma benção”* ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E quem faz e canta samba sempre soube, sempre sabe, que a voz é sentença de prender ou libertar (Nei Lopes, 2014). Sabe, porque o samba é ancestral, veio da África pra cá nos terríveis navios negreiros. E por isso, é impregnado da filosofia africana e afro-diaspórica, e quem carrega esse modo de pensar, de viver, estar no mundo, sabe que o Verbo, além de poder criador, possui a função de preservar, destruir, e recriar o mundo (Nei Lopes, 2020). ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Antes do samba chamar samba já existia como expressão cosmológica de um povo que “canta e dança a noite pra poder tá mais forte de dia” (música “Livro da Selva, Thiago Elnino). O samba passou a existir enquanto fenômeno cultural marginal brasileiro no início do século XX (Nei Lopes, 2019); porque o mundo colonizador, branco, eurocristão, capitalista, ocidental, moderno, binário, não bastava, não dava, e não dá, conta de lidar com as complexidades do Ser. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Por ser tão ferrenho, e potente, o samba é tão boicotado midiaticamente. Por isso é tão barrado de adentrar os espaços de cultura legitimadas nesse Brasil colônia, por isso, principalmente, é tão perseguido, e tão distante da escola. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Como estratégias de defesa o samba, que é o próprio povo afro-brasileiro, criou espaços físicos de resistência contra a colonização cultural, para emanação de conteúdos cravados nas raízes africanas dinamizadas aqui no Brasil: os terreiros e as escolas de samba. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Terreiros e escolas de samba amalgamaram-se. Nos terreiros o povo negro reencanta o mundo, descarrega o assombro colonial do mundo desencantado. Nos terreiros cura-se doenças de um povo que tem negado, historicamente, seu acesso ao Direito a políticas públicas de saúde. Nos terreiros encontra-se amor e afeto também historicamente negados, a quem não era visto como Ser, mas como mão de obra, apenas.
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Nesse chão de encante dobra-se todo e qualquer tipo de morte. Nos terreiros está o samba, ou vice e versa. No samba sagrado e profano se misturam.Tudo é profano, tudo é sagrado.
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“Nunca se falou tanto em escola, gente boa! Escola pra lá, escola pra cá! Aí, de repente, a gente chamava os blocos de carnaval de “escola”. Escolas de Samba!” (Nei Lopes, 2012). As escolas de samba são, também, a luta do povo negro contra seu acesso negado ao Direito de serem beneficíarios de políticas públicas educacionais. As escolas de samba organizam-se e destacam-se em um período, ainda inacabado, de luta por acesso à escola, e não a qualquer escola.
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A luta por um espaço educativo que reconheça a importância e contribuição africana para cultura brasileira, uma escola que conta, com orgulho, a história do Brasil, uma escola que não mate por dentro (música “Pedagoginga” Thiago Elninõ).
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Uma escola que seja boca que tudo come, inclusive comedora de sabedoria das entidades de terreiro. Espaço que além de outras linguagens, ensina a gramática do tambor, que com o toque chama Oxossi, como o da Mocidade Independente de Padre Miguel (Luiz Antonio Simas, p. 30 2019).
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As escolas de samba gingam por uma escola que pulse vida. Por uma escola onde o maior pedagogo seja Exu. “Mensageiro, guardião Senhor dos quatro elementos Me dê seu consentimento Pra eu cantar nessa função.”*
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Laroyê!
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*Poesia "licença!" autor Nei Lopes, livro Poétnica, 2014.
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Bibliografia:
“Filosofias Africanas”, Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, 2020.
“Dicionário da história social do Samba”, Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, 2019.
“Pedagogia das Encruzilhadas”, Luiz Rufino, 2019.
“A lua triste descamba”, Nei Lopes, 2012.
“O corpo encantado das ruas”, Luiz Antonio Simas, 2019.
Texto de Juliana Faltz para a .urb
Imagem: Inter