07/08/2024
CASAS MAIS ANTIGAS DE BOTUCATU
Embora as edificações do ecletismo chamem mais atenção no centro de Botucatu, devido a sua ornamentação criativa e à qualidade construtiva, existe uma outra "camada histórica" no centro da cidade que poucas pessoas notam: as edificações anteriores ao ecletismo.
Até 1880 predominava a arquitetura de tradição luso-brasileira, sem ornamentação, construída em pau-a-pique (estrutura principal de madeira, e paredes de taquaras e coqueiros trançados com cipó preenchidas de barro socado pelos dois lados). Essa arquitetura foi em grande parte demolida ou intensamente reformada nos anos seguintes, com a introdução dos tijolos e da ornamentação do ecletismo (1880-1930), praticamente sumindo da paisagem urbana de Botucatu. Mas restam vestígios que vamos explorar aqui.
As mais antigas se situam no início da rua Amando. A antiga Formiguinha (Amando, 321) provavelmente data dos primeiros tempos da povoação e pode até ser uma das 6 casas construídas por João da Cruz Pereira quando ergueu a capela de Santana no largo do Paratodos, em 1845-1848. Se não for destes anos, é de pouco depois, pois já está na foto de 1872.
Mais pra cima, temos na Amando, 542 a antiga livraria Papirus, antes casa das famílias Dinnucci e Pardini; trata-se de uma edificação muito reformada (afinal os moradores eram construtores), mas originada de uma das melhores edificações dos primeiros tempos da povoação, casa de uma das figuras mais importantes daqueles tempos certamente.
Ainda na Amando, 1030, temos uma edificação a ser melhor investigada, que aparece na planta da cidade de 1892 e apresenta paredes muito espessas; pode ser uma casa de pau a pique anterior a 1880 que foi revestida em tijolos após essa data, ou uma das primeiras casas erguidas em tijolos ao redor de 1880.
Na rua Curuzu também temos alguns destes interessantes vestígios do passado, alguns muito reformados e irreconhecíveis como o número 249, o 715 ao 789 e o 813; no entanto, tem algumas que ainda se reconhece a estrutura em pau a pique claramente, apontando que provavelmente se tratam de vestígios de edificações das mais antigas da cidade, possivelmente anteriores a 1860: a rua Curuzu, do 445 ao 459 e a rua Curuzu, 1013. Quanto ao número 512 da Curuzu, embora os proprietários afirmem que é uma construção de tijolos, a espessura exagerada do pavimento térreo me sugere uma parede em taipa de pilão, como verifiquei pessoalmente que são as fundações das casas do 445 ao 459, coisa rara em Botucatu onde faltavam taipeiros de pilão. Ainda sobre o 512, Hernani Donato acreditava que teria sido sede do Colégio Knupel, o primeiro da cidade, por alguns anos.
Pra fechar, algumas das primeiras edificações em tijolos da cidade, que documentam a transição entre o pau a pique e os tijolos, aproximadamente em 1880, misturando as técnicas: a Rangel Pestana 99 e as casas da rua Quintino Bocaiúva 275 e 278. Este do 278, teria sido reformado no início do século XX pelos Rafanelli, construtores, para a proprietária sra. Amália, parteira muito conhecida naqueles tempos.
Enfim, algumas destas edificações são jóias lapidadas, outras brutas, mas todas elas poderiam ser objeto de interessantes projetos de reforma que explorassem a riqueza de suas histórias e conciliassem a preservação, mesmo que apenas parcial ou de alguns elementos pontuais, e assim ajudassem a contar a história do centro da cidade.
Não creio que preservar tudo seja o caso, mas creio que é possível com bons projetos conciliar as demandas do mercado imobiliário com a preservação de traços de nossa história. Infelizmente, falta muita criatividade e projetistas limitados só conseguem atuar a partir da demolição total.