06/12/2018
ENTÃO VAMOS LÁ!
O primeiro ponto a ser abordado é a relação quase que íntima entre o arquiteto e o cliente. Para isso, é mais adequado desassociar a ideia de cliente pagante e focar em cliente como usuário. Existem inúmeros tipos de usuários de inúmeros tipos de edificações e usos, por tanto, é providencial identificar quem são essas pessoas e começar a entendê-las. Nesse sentido, se a lógica é que cada ser humano é diferente um do outro, podemos concluir que cada um terá anseios, vontades e necessidades diferentes. Portanto, a quebra de padrões nesse ponto é fundamental para o processo do arquiteto, aquilo tudo o que nascemos e crescemos acreditando que era o certo, o tradicional e o normal, começa a ser deixado de lado e então os velhos macetes se tornam aspectos individuais e únicos para cada novo projeto.
O próprio processo evolutivo da humanidade ao longo das gerações alterou significativamente o entendimento e a percepção do espaço, sendo um comportamento nitidamente cultural, aprendido com o acúmulo da experiência humana. Quer um exemplo? Nos primórdios da civilização, a caverna era ocupada como abrigo para se proteger das chuvas, animais e intempéries. Ao longo dos anos, essa mesma caverna se transformou em um espaço construído pelo homem e junto a isso houve também a evolução da tecnologia, o que proporcionou abrigos cada vez mais elaborados, sendo eles o resultado do processo de aquisição, acúmulo e desenvolvimento da experiência que uma geração passou a outra através da educação e da história, ou seja, da cultura. A sua essência continua lá, uma casa é um abrigo. Mas é apenas um abrigo? A resposta é não. Ela abriga também outras funções, sonhos, famílias, experiências, amigos, supre necessidades, traz segurança e o conforto de um lar. A minha casa é diferente da sua, por tanto, o arquiteto não pode e não deve fazer arquitetura para si, se não para o usuário.
Chamamos isso de BRIEFING, o primeiro contato que o arquiteto tem diretamente com o usuário, na intenção e expectativa de extrair o máximo de informações possíveis a respeito dele. Se deixem levar por uma conversa calma e sem hora para acabar, e de preferência tomando um bom café. Pergunte, mas sobretudo escute. Você será capaz de direcionar a conversa a favor do que precisa saber para iniciar o projeto e pode ser que o seu usuário ache isso invasão de privacidade. Mas como vou saber se o casal dorme em quartos separados se eu não perguntei? Que a Buba, a Lulu da Pomerânia da família, a caçula da casa, tem um quarto só pra ela e por isso não devemos prever um canil? Pergunte! E ainda externalize a sua segunda profissão, a do psicanalista, capaz de interpretar as entrelinhas. As vezes o que eu falo não quer dizer o que de fato quero.
O principal objetivo do briefing não é traçar o perfil do usuário, e sim traçar o perfil daquele projeto para aquele usuário. Vamos a um exemplo. A Fernanda é uma pessoa calma, serena, de bem com a vida, tem muitos amigos e adora a sua profissão. Como seria a casa da Fernanda? Não sei, não consegui identificar pois falei da Fernanda, e não das relações dela com a sua casa. Vamos mudar. Pergunte como é a rotina desse usuário, quais são as pessoas que frequentam a casa, se possui empregada, se essa empregada dorme na casa ou não, se tem jardineiro, se tem cachorro e como vive esse cachorro, se é ela que limpa a casa, se faz comida ou almoça fora, se recebe muitos amigos ou poucos, etc. E agora, como seria a casa da Fernanda? Em um panorama geral, podemos identificar que essa casa deverá ser flexível, espaçosa, prática e funcional.
Para o Arquiteto Paulo Mendes da Rocha, a arquitetura é a satisfação de necessidades e desejos. E quem os interpreta? O arquiteto. Porém, nem as necessidades particulares e sobretudo as necessidades do coletivo são frutos da construção do arquiteto, não são invenções da arquitetura e sim da política e da cultura. Se exemplificarmos com a falta de escolas, hospitais, etc., esclarecemos muito bem esse paralelo. Deixo aqui então uma reflexão do escritor alemão Goethe que diz que “arquitetura é música congelada”. E você, o que entende sobre isso?