21/01/2017
O fabuloso pão do Rangel.
Existem coisas com caráter mágico, e isto nem o mais cético poderá negar. Um dia, com certeza, a ciência desmitif**ará estas coisas, mas, até então, nos permitiremos ser envolvidos pela magia que delas emana. Não é sempre que topamos com coisas assim, a bem da verdade, é coisa até bem rara. Hoje tropeçamos em uma destas. A história, embora breve, implica em um relato relativamente longo, portanto peço um tico de paciência do leitor, até porque a mágica das coisas não vem de estalo, vem da paciente abertura para que o mundo das coisas mágicas nos envolva.
Eu já sabia que o Rangel faz pães, mas, até onde sabia, fazia-os para consumo próprio. Verdadeiros artistas fazem suas coisas mais para si que para os outros. Dizem que cozinhar é uma arte, com o que concordo, e Rangel é um artista; disto eu já sabia antes mesmo de comer qualquer coisa que ele fizesse, porque ele é artista gráfico. Sempre soube que um artista não se contenta com apenas uma forma de manifestação. Aparentemente, os que fazem sucesso normalmente o fazem em apenas uma forma, mas o que é o sucesso? Ficar famoso, ganhar dinheiro, ser reconhecido entre seus pares? Pode ser qualquer uma destas opções, depende de qual delas o artista fez objetivo. Pode ser também realizar algo que satisfaça a própria expectativa. Se haverá arte aí, é outra e longa história, carregada de exaustivas discussões. Mas, com certeza, haverá poesia. E mágica, porque estas duas estão ligadas.
Mas é melhor parar de divagar e contar esta história de uma vez por todas, porque possivelmente, a esta altura, já esgotei toda a cota de paciência que o leitor me ofereceu.
Vi que o Rangel estava vendendo alguns pães que faz, e pelas fotos soube que havia alguns pães de casca mais dura, crocante, como os pães italianos. Olhei bem, a forma deles era como a dos pães italianos. Olhei melhor. Eram pães italianos. Bem, meu sangue é metade italiano, o resto é uma salada russa, composta por ascendência portuguesa, francesa e, pasmem, índia. Devem haver mais coisas nesta mistura, mas o que sei é que o sangue italiano me faz ser apaixonado por pães.
Encomendei meu pão para pegar no sábado, lá pela hora do almoço. Como toda obra de arte deve ter um nome, ele deu o nome ao pão que eu comprei de Tomilheiro; além do óbvio tomilho o pão têm castanha-do-pará. Já fiquei salivando e esperando pelo sábado desde a quinta-feira, que é quando eu encomendei minha obra de arte.
Sexta-feira, como de regra, fui dormir quase no dia de sábado, não porque tenha feito farra, como muitos podem pensar, mas porque trabalhei até as três da madruga. E só dormi por causa de uma pílula, tomada porque o sono não queria vir mesmo. Aí chapei.
Acordei com a patroa me chamando com a delicadeza que lhe é peculiar: – sabe que horas são? Arrisquei: meio-dia? Qual o quê – disse ela –, três horas. Pulei da cama em câmara lenta, assim me pareceu, se bem que, para o olhar de outros, a cena deve ter se parecido mais com uma tartaruga bêbada caindo de um degrau. Bebi minha caneca matinal de café – ou melhor dizendo, vespertina –, escolhi um pão integral ao bolo que era a opção e depois fui verif**ar as mensagens no comp**ador. Abri a tampa do laptop e pimba! Saltou de lá uma mensagem do Rangel: seu pão está pronto! Como dizia minha netinha: calalho! Esqueci do pão! O pão tudo bem pegar atrasado, mas podia estar sendo uma sa*****em com o Rangel, vai que o cara tinha alguma programação externa para a tarde, tipo o casamento do melhor amigo, e eu estava empatando ele. Mandei mensagem. Respondeu. Eu disse que estava indo buscar. Ele: – ok. Pedi o endereço. Nada de resposta. Sabia que ele mora lá pelos lados de Terras de Barão, mas onde exatamente não. A resposta não vinha, e eu já fui me angustiando, porque aqui em Barão as infraestruturas não funcionam simultaneamente, tipo a piada do inferno brasileiro, quando tem luz não tem internet, quando tem internet não tem luz, e é comum uma destas faltas ser acompanhada de falta de água. Para piorar eu não tinha o telefone dele. Mandei mensagem passando o número de meu celular e nos mandamos no caminho da casa dele, pensando em comer um pastel ou algo assim enquanto esperávamos a ligação dele. Fomos para os lados de lá e nada de ele ligar. Já estávamos voltando, parados comprando frutas na barraca do tiozinho que têm para aquelas bandas e ele ligou. Peguei o endereço e arrancamos para lá – o que é um exagero, porque o fusquinha não dá arrancadas. Chegamos lá e Rangel me entregou o pão, uma pequena maravilha aromática. Levamos um papo rápido e voltamos para casa. Fui rapidinho comprar um salame e voltei. A patroa já estava sentada à mesa, com o olhar hipnotizado pelo pão. Como a manteiga já estava na mesa, peguei dois queijos e as azeitonas na geladeira para servirem como acompanhamento ao pão – que era o prato principal – e pronto! Foi aí que se deu a mágica. Ao comer aquele pão maravilhoso fomos transportados para a terra e o tempo de meus ancestrais no Veneto. Estávamos em alguma casinha em algum lugar próximo a Verona, saboreando um jantar igual aos de quando não havia carros, luz elétrica e assobios irritantes de whatsap, quando as pessoas comiam a carne de Cristo e bebiam seu sangue – supermetaleiro isso aí, né? – como que sorvendo uma benção em um ambiente sagrado. É aí, que reside a grande mágica na comida, mais até que nos transportar para algum outro lugar ou algum outro tempo: quando aquilo que se come é tão bom, nos devolve a dimensão perdida de quão sagrado é o ato de comer e de fazer a comida. Não é à toa que alguém inventou a expressão “é para comer de joelhos”. Comemos em silêncio, querendo que aquele momento nunca acabasse. Acabou quando já quase acabáramos com o pão. Os acompanhamentos permaneceram quase intocados, à exceção da manteiga, que, no final das contas, continua sendo o grande acompanhamento para bons pães. Depois disto um cacho de uvas, a vontade de agradecer ao Rangel e a certeza de que é simples ser feliz. Ah, sim, também restou a convicção de que ainda existe magia.