Casa das Flores

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02/06/2019

Como o amor de pessoas em condições precárias consegue desafiar as concepções capitalistas do que é uma boa vida?

O Clube dos Maluquinhos da Esquina. Fui eu quem descobriu a parada. Depois de uma temporada no hospital - quando a Mara ...
27/08/2017

O Clube dos Maluquinhos da Esquina.

Fui eu quem descobriu a parada. Depois de uma temporada no hospital - quando a Mara tirou o resto da mama que o filho da p**a do médico antigo esqueceu de tirar, e ganhou de compensação um par de air-bags, ao modo de quando éramos crianças e nossos pais nos davam um brinquedo quando nos comportávamos bem na hora de levar injeções nas bundas -, ao voltarmos para casa, passados quinze dias longe, vimos umas carretas de servir rangos e bebidas estacionadas bem ao lado de casa; a bem dizer, com duas casas entre nós e a esquina onde estavam.
A história da cirurgia, do hospital, das lentas caminhadas na Praça da República – perto de onde f**a o hotel em que f**amos de resguardo porque não podíamos viajar de volta –, da longuíssima conversa no Bar Brahma com o queridíssimo Fernando, e todo o rolê naqueles dias em São Paulo f**am para outra hora, porque aqui o lance é o clube que os maluquinhos montaram na esquina de casa, que se chama Esquina dos Trucks, mas poderia bem se chamar Esquina dos Truques.
Os maluquinhos titulares são três: João Poneisão, João Poneisinho e o Monge, a.k.a. Evandro, Lu e Gui. O primeiro é um japa bonachão, que pilota as panelas, fogões e fritadeiras para cozinhar karaguês, karês, lamens, missoshiros, temakis e outras maravilhas do Oriente; já comi de quase tudo que ele faz por lá, e garanto que o cara manja dos parangolés e paranauês. O segundo é uma pecinha rara, do tipo come-quieto, e poderia figurar em qualquer comédia japonesa sobre a Yakusa. O terceiro eu sabia que conhecia de algum lugar, e demorou um pouco para me ligar no neurônio certo: é ele quem aparece na maioria dos rótulos de cervejas trapistas; se duvida, é só conferir os olhos claros, a barba e os cabelos arruivados e encaracolados, e a vermelhidão das bochechas que só os monges beberrões têm; e se não for ele, é um clone que acharam dele, por certeza!
O fato é que eu comecei a passar por lá e pegar um chope artesanal para levar para casa, junto com pequenos e deliciosos pedaços de carne de porco ou de frango empanados com farinha panco e aspergidos com um delicado molho japonês. Eu chegava em casa com as mãos ocupadas, repleto de desejo pelos itens gastronômicos descritos, e recebia o olhar de faquinhas da Mara, que, estando de dieta por causa da operação, não podia me acompanhar na refestelação, esbórnia e lambança a que eu me entregava com a carne e a bebida. E assim passávamos estas noites de recuperação dela, os dois assistindo séries na TV, eu me esbaldando em chope e frituras, e a Mara se mordendo de inveja.
Foram se passando os dias, eu chegando lá na esquina no começo da noite e perguntando pro Evandro: - o, Jãoponês, tem flango flito? O japa trocando olhares com o Gui e dizendo com olhos: - p***a! esse alemão tá me tirando? eu vou acabar enfiando a mão na cara dele! O Gui dando um meio sorriso maroto e respondendo: - vai um chope aí? E o Lu… bom, o Lu quase nunca estava lá, más línguas dizem que f**ava correndo atrás de uns três rabos de saia; ou, segundo ele diz, indo várias vezes conferir o outro trailer dele. E a Mara me fuzilando com os olhos quando eu chegava com o chope e as frituras.
Com o tempo o Evandro entendeu que a zoação era por bem querer, e nós todos fomos desenvolvendo amizade, que, quando a Mara por fim se restabeleceu, foi aumentando, já com a participação dela, e com toda a pilha que ela coloca quando está entre amigos. Nas noites de hoje em dia, depois das meias-noites de sextas e sábados, quando a Mara fecha seu próprio boteco, sentamo-nos todos, Mara, eu, Evandro, Lu, Gui e Ricardo - dono de um outro boteco aqui da quebrada -, para f**armos a rir e conversar, até muito depois do que seria um horário normal de boteco, sem pretensões de resolver os problemas do mundo ou desvendar os segredos da mecânica quântica, escutando frases irreprodutíveis, como a opinião da Mara sobre o corte de cabelo que o Gui permitiu que um pombo fizesse nele. Sorte ou azar do Evandro, do Lu e do Gui, afinal, ninguém mandou eles fazerem amizade com gente como nós.

24/02/2017
O fabuloso pão do Rangel.Existem coisas com caráter mágico, e isto nem o mais cético poderá negar. Um dia, com certeza, ...
21/01/2017

O fabuloso pão do Rangel.

Existem coisas com caráter mágico, e isto nem o mais cético poderá negar. Um dia, com certeza, a ciência desmitif**ará estas coisas, mas, até então, nos permitiremos ser envolvidos pela magia que delas emana. Não é sempre que topamos com coisas assim, a bem da verdade, é coisa até bem rara. Hoje tropeçamos em uma destas. A história, embora breve, implica em um relato relativamente longo, portanto peço um tico de paciência do leitor, até porque a mágica das coisas não vem de estalo, vem da paciente abertura para que o mundo das coisas mágicas nos envolva.
Eu já sabia que o Rangel faz pães, mas, até onde sabia, fazia-os para consumo próprio. Verdadeiros artistas fazem suas coisas mais para si que para os outros. Dizem que cozinhar é uma arte, com o que concordo, e Rangel é um artista; disto eu já sabia antes mesmo de comer qualquer coisa que ele fizesse, porque ele é artista gráfico. Sempre soube que um artista não se contenta com apenas uma forma de manifestação. Aparentemente, os que fazem sucesso normalmente o fazem em apenas uma forma, mas o que é o sucesso? Ficar famoso, ganhar dinheiro, ser reconhecido entre seus pares? Pode ser qualquer uma destas opções, depende de qual delas o artista fez objetivo. Pode ser também realizar algo que satisfaça a própria expectativa. Se haverá arte aí, é outra e longa história, carregada de exaustivas discussões. Mas, com certeza, haverá poesia. E mágica, porque estas duas estão ligadas.
Mas é melhor parar de divagar e contar esta história de uma vez por todas, porque possivelmente, a esta altura, já esgotei toda a cota de paciência que o leitor me ofereceu.
Vi que o Rangel estava vendendo alguns pães que faz, e pelas fotos soube que havia alguns pães de casca mais dura, crocante, como os pães italianos. Olhei bem, a forma deles era como a dos pães italianos. Olhei melhor. Eram pães italianos. Bem, meu sangue é metade italiano, o resto é uma salada russa, composta por ascendência portuguesa, francesa e, pasmem, índia. Devem haver mais coisas nesta mistura, mas o que sei é que o sangue italiano me faz ser apaixonado por pães.
Encomendei meu pão para pegar no sábado, lá pela hora do almoço. Como toda obra de arte deve ter um nome, ele deu o nome ao pão que eu comprei de Tomilheiro; além do óbvio tomilho o pão têm castanha-do-pará. Já fiquei salivando e esperando pelo sábado desde a quinta-feira, que é quando eu encomendei minha obra de arte.
Sexta-feira, como de regra, fui dormir quase no dia de sábado, não porque tenha feito farra, como muitos podem pensar, mas porque trabalhei até as três da madruga. E só dormi por causa de uma pílula, tomada porque o sono não queria vir mesmo. Aí chapei.
Acordei com a patroa me chamando com a delicadeza que lhe é peculiar: – sabe que horas são? Arrisquei: meio-dia? Qual o quê – disse ela –, três horas. Pulei da cama em câmara lenta, assim me pareceu, se bem que, para o olhar de outros, a cena deve ter se parecido mais com uma tartaruga bêbada caindo de um degrau. Bebi minha caneca matinal de café – ou melhor dizendo, vespertina –, escolhi um pão integral ao bolo que era a opção e depois fui verif**ar as mensagens no comp**ador. Abri a tampa do laptop e pimba! Saltou de lá uma mensagem do Rangel: seu pão está pronto! Como dizia minha netinha: calalho! Esqueci do pão! O pão tudo bem pegar atrasado, mas podia estar sendo uma sa*****em com o Rangel, vai que o cara tinha alguma programação externa para a tarde, tipo o casamento do melhor amigo, e eu estava empatando ele. Mandei mensagem. Respondeu. Eu disse que estava indo buscar. Ele: – ok. Pedi o endereço. Nada de resposta. Sabia que ele mora lá pelos lados de Terras de Barão, mas onde exatamente não. A resposta não vinha, e eu já fui me angustiando, porque aqui em Barão as infraestruturas não funcionam simultaneamente, tipo a piada do inferno brasileiro, quando tem luz não tem internet, quando tem internet não tem luz, e é comum uma destas faltas ser acompanhada de falta de água. Para piorar eu não tinha o telefone dele. Mandei mensagem passando o número de meu celular e nos mandamos no caminho da casa dele, pensando em comer um pastel ou algo assim enquanto esperávamos a ligação dele. Fomos para os lados de lá e nada de ele ligar. Já estávamos voltando, parados comprando frutas na barraca do tiozinho que têm para aquelas bandas e ele ligou. Peguei o endereço e arrancamos para lá – o que é um exagero, porque o fusquinha não dá arrancadas. Chegamos lá e Rangel me entregou o pão, uma pequena maravilha aromática. Levamos um papo rápido e voltamos para casa. Fui rapidinho comprar um salame e voltei. A patroa já estava sentada à mesa, com o olhar hipnotizado pelo pão. Como a manteiga já estava na mesa, peguei dois queijos e as azeitonas na geladeira para servirem como acompanhamento ao pão – que era o prato principal – e pronto! Foi aí que se deu a mágica. Ao comer aquele pão maravilhoso fomos transportados para a terra e o tempo de meus ancestrais no Veneto. Estávamos em alguma casinha em algum lugar próximo a Verona, saboreando um jantar igual aos de quando não havia carros, luz elétrica e assobios irritantes de whatsap, quando as pessoas comiam a carne de Cristo e bebiam seu sangue – supermetaleiro isso aí, né? – como que sorvendo uma benção em um ambiente sagrado. É aí, que reside a grande mágica na comida, mais até que nos transportar para algum outro lugar ou algum outro tempo: quando aquilo que se come é tão bom, nos devolve a dimensão perdida de quão sagrado é o ato de comer e de fazer a comida. Não é à toa que alguém inventou a expressão “é para comer de joelhos”. Comemos em silêncio, querendo que aquele momento nunca acabasse. Acabou quando já quase acabáramos com o pão. Os acompanhamentos permaneceram quase intocados, à exceção da manteiga, que, no final das contas, continua sendo o grande acompanhamento para bons pães. Depois disto um cacho de uvas, a vontade de agradecer ao Rangel e a certeza de que é simples ser feliz. Ah, sim, também restou a convicção de que ainda existe magia.

Um olímpico Dia dos Pais na Casa das Flores Logo cedinho, por volta de dez horas da madrugada, a patroa, ansiosa e acord...
17/08/2016

Um olímpico Dia dos Pais na Casa das Flores

Logo cedinho, por volta de dez horas da madrugada, a patroa, ansiosa e acordada desde as sete cozinhando para mim um almoço, já me acordou com aquele jeitinho meigo de quando a coisa está meio corrida: vai acordar ou podemos pular direto para o Dia das Crianças? Já pulei direto da cama para o chuveiro e do chuveiro para a cozinha, para ajudar na preparação do estrogonofe, onde fui recebido com mais uma dose do coquetel de meiguice: tomou banho e voltou a vestir o pijama? Há! Para esta, como não estava mais acabando de acordar, a resposta estava pronta para a largada: é claro, ou você acha que vou colocar a camisa que ganhei no Natal só para manchar? Deixados os pingos dos is meio de lado, quase em seus lugares, dei a largada para tirar o atraso de minha participação na armação do banquete: descasca que descasca, limpa que limpa, espreme que espreme, mexe que mexe, prova que prova e lava que lava.
Com a coisa já quase pronta, deixei a patroa finalizando as arrumações do almoço e parti na Purga Verde (para quem não conhece, é nosso fusquinha 66), para fazer a coleta da turma. Primeiramente o Danilo, que mal cabe no banco da frente do fusca, na sequência a Dona Leni, a mama, nona e bisa, que trouxe um vaso de flores para o Jardim Suspenso da Mara, depois Braz, Pedro e Gigi, que se espremeram em metade do banco traseiro, porque o Danilo, com 1,90m de altura, teve que se encolher na outra metade do banco, deixando até agora a pergunta no ar: como é que ele conseguiu acomodar as pernas? Ainda bem que os outros três são muito magrinhos, de forma que, ao chegarmos em casa, conseguiram sair do carro com um pouco mais de facilidade do que quando se tira atum da lata; atum sólido, que fique claro, nada daquele atum ralado, que sai até com colher. Falta uma parte do time: o Rafa, a Pam e o Miguel? Não, eles já haviam adiantado o expediente nos levando para almoçar no sábado, quando partiram para viajar no final de semana do primeiro Dia dos Pais do Rafa.
Quando chegamos de volta, já estavam lá a Rosana, o Gui e o Alê, e logo depois chegaram o Joyce e o Jorge.
Feita a festa, com direito a bolo e tudo mais, almoçamos cada um a seu tempo, afinal, quem disse que em festa todos têm que comer ao mesmo tempo? Eu mesmo só fui almoçar lá pelas tantas, mais para não beber de barriga vazia que por qualquer outro motivo, de forma que fiquei empachado na espreguiçadeira, aproveitando a festa, sem mover absolutamente nenhumazinha fibrazinha de meu corpo para fazer nenhunzinho servicinho sequer – afinal, era Dia dos Pais. Né não?
Em tardes assim a conversa é vagalhão que se move moroso para se esparramar em uma praia qualquer, quando então vamos todos a surfar outro assunto qualquer em um novo vagalhão. Mas, para isto, preciso é que se remova do caminho um obstáculo que navega por todas as mesas de todos os almoços de todos os pais no país, às vezes transformando-se em tsunami trágico, quando deveria ser, no máximo um alagadiço ou pântano: é golpe ou não é golpe, valeu ou não valeu, tá na regra ou não tá? Demoramos, por aqui, só uns trinta minutos do primeiro quarto de tarde para resolver a parada, até porque o Braz estava sozinho a defender o golpe.
Lá pelas quatro, conforme o combinado, e com o cálculo justo da cerveja, chegou o Etê e seu Uber paraguaio, contratado para que a galera que veio na Purga Verde pudesse voltar sem que ninguém fosse obrigado a não beber – principalmente eu! Beija que beija, bença que bença, tchau que tchau, abraça que abraça, parabeniza que parabeniza, beija que beija novamente, e lá se foi a turma, desta vez um pouco menos empaçocada no Uber paraguaio.
O Joyce e o Jorge fizeram menção de ir embora, coisa que não deixamos, e fomos lá, eu e o Joyce, buscar mais um fardo de latinhas de cerveja para arrematar os assuntos e ampliar, com este doping, a maratona conversacional com os quatro finalistas do evento. A partir daí, pouco me lembro, mas me lembro de que tive a ideia de fazer uma série de vídeos: A História da MPB, segundo Joyce. De outra coisa eu me lembro bem: na segunda-feira, acordei com um começo de gripe.

12/08/2016

Bricabraque.

Fazemos muito isto, a patroa, por uma personalidade dinâmica, não para de fazer coisas aqui em casa. Está sempre arrumando alguma coisa para arrumar e enfeitar: um vaso novo para encher com flores, um enfeite para pendurar, uma porta para pintar, e por aí vai. Eu sou levado de roldão, me especializei em medir, esquadrinhar, furar e parafusar nos lugares que ela vai apontando. Fico até meio constrangido quando as pessoas passam na frente de casa e me cumprimentam pela beleza que aumenta na varanda dia a dia, vou logo dizendo que a culpa não é minha. Não que não seja normal as mulheres se preocuparem mais em enfeitar a casa, da mesma forma que se enfeitam, afinal, a casa acaba sendo uma extensão do corpo, e todo mundo sabe que homens cuidam do corpo da mesma forma que ogros.

O som da Casa das Flores.Por aqui há muita concordância com relação à música, a patroa gosta muito de Raul Seixas, Pink ...
09/08/2016

O som da Casa das Flores.

Por aqui há muita concordância com relação à música, a patroa gosta muito de Raul Seixas, Pink Floyd, Bob Dylan e Elis, e eu concordo em colocar para tocar. Por outro lado, ela concorda plenamente com meu uso de fones de ouvido quando ouço Jon Spencer Blues Explosion, The Butcherettes, 999 ou Sham 69. Deste modo, a música que o pessoal que passa em frente de casa ouve dá sempre um clima calmo. Fazemos almoço ouvindo música, conversamos na varanda ouvindo música, furamos as paredes ouvindo música. Por isto não entendemos quem viva sem uma trilha sonora. Trilha sonora, se enxergarmos sob uma óptica poética, é uma picada para induzir a viagem em meio à multiplicidade de ideias que o matagal de nossos pensamentos oferece. É inevitável que a jornada conversacional, a dinâmica das ações ou a longa linha de pensamentos consecutivos e sobrepostos da meditação (no sentido de contemplação da realidade) involuntária sofram influência da música que se está ouvindo. Se não, pense aí na diferença de ritmo que se consegue furando paredes ao som George Thorogood ou Ligeti. Sei lá, este papo sobre música está me fazendo viajar. Melhor parar por aqui, mas sem deixar a música parar de rolar.

09/08/2016

A patroa inventou de fazer umas aulas de pilates, ministradas pela Unicamp. Cara, algumas coisas só acontecem com ela; alguém aí conhece quem tenha saído de uma aula de pilates com dor no pescoço? Voltou praguejando, com um humor do cão. Nada de mais, quem não tem vontade de cortar os testículos do Pai Sagrado quando arruma uma dor no pescoço? A sorte dela foi que me lembrei de um senhorzinho chinês (presumo que seja chinês, mas até hoje não consegui saber de onde ele veio, por um simples motivo: ele quase não fala lhufas de português e eu não falo bulhufas de chinês); o lance é que este senhorzinho chinês é massagista, e mora perto de casa, vejo-o sempre andando na praça com suas crianças e trocamos acenos. Fomos lá. Apesar de nossa enorme dificuldade de comunicação, o senhorzinho entendeu o problema, simplesmente perguntando: dor? Ela explicou onde doía, através de sins e nãos. O senhorzinho tirou com as mãos a dor dela. No final, depois de muito insistirmos, não aceitou pagamento. É por estas e outras que Barão – ainda – é um lugar especial.

09/08/2016

Uma noite perfeita.

Para muitos uma noite perfeita é uma festa, ou uma experiência maluca em uma viagem, ou um jantar romântico, ou uma balada, ou uma noite de s**o tântrico. Ou outras coisas mais ainda. Neste sábado tivemos uma noite perfeita, que a bem dizer começou logo no início da tarde. Completamente de boas, depois de um rolê na Praça do Côco, de pendurarmos nas paredes meia dúzia de objetos feitos pelo Cisco e plantarmos mais umas mudas no nosso Jardim Suspenso, nos sentamos em nossas cadeiras para aproveitar o Sol de inverno e a vista da praça – infelizmente maculada por uma p**amente gigantesca placa da Sanasa que algum id**ta decidiu plantar em meio às árvores –, já abrindo a primeira das dez garrafas de cerveja que seriam tomadas (dez ampolas é nossa conta, seis para mim e quatro para a patroa, que teima em dizer que nossa cota é cinco para cada um).
Seria difícil dizer sobre tudo que conversamos, até porque daria um livro ou dois, mas uma coisa ilustra bem a parada: por uma hora escutamos uma p***ada de versões de Hallelujah, do Leonard Cohen, só para decidirmos qual era a melhor. É claro que isto é uma questão estética, e cada um deve ter sua versão predileta, mas, para nós, naquela noite, a melhor versão foi a da Hannah Trigwell, gravada em uma igreja.
Para resumir, esta perfeita noite de sábado foi tudo o que disse que as pessoas dizem que pode ser, menos por um ponto: no final, esquecemos de jantar.

Uma grave denúncia.Um coordenador da feira de artesanato da Praça do Côco de Barão chamou a polícia para um artesão cujo...
09/08/2016

Uma grave denúncia.

Um coordenador da feira de artesanato da Praça do Côco de Barão chamou a polícia para um artesão cujo único “crime” foi querer vender os produtos que faz. Conheço o menino – desculpem-me, chamo por meninos todos os que são mais novos que eu, que não são poucos –, é trabalhador, é artista, é de boa índole, é amoroso, é honesto; gente boa, como dizíamos antigamente; fora isto, é artesão credenciado e conhecido. Tomei as dores. Não é por nada não, é por um tudo. Já fui artesão e sei o perrengue que é esta escolha. Quem faz esta escolha, que eu fiz por um tempo em que era mais jovem, e que ele faz hoje, o faz para tentar uma alternativa ao modo completamente insano que é viver em uma sociedade para lá de insana; é um esforço para manter a sanidade.
Eu estava lá porque compro coisas dele, com as quais bem enfeitamos nossa casa, aí soube que o tal do coordenador já havia ido aporrinhá-lo, provavelmente porque ele usa cabelos compridos e uma barba que não condiz com o modelo “lumberjack” tão em moda hoje em dia. Conversei com ele e soube que há meses tenta ser aceito pela tal feirinha, quer pagar para estar lá, e não entende porque não deixam. Eu que sou mais velho e já me estourei na vida por ser “gauche” – tinha um livro que eu li quando adolescente que me aconselhou ser assim – sei o porquê de não responderem os e-mails do menino: estas feirinhas estão se tornando a negação do que um dia foram. Explico: as atuais feiras de artesanato são descendentes das que, na minha época, eram chamadas por feiras hippie, mas, como tudo é absorvido pelo caráter comercial da sociedade, acabaram sendo deformadas em lugares em que a pequena burguesia encontra um jeito de colocar seus incompetentes – dentro do conceito de competência que é próprio da pequena burguesia: ganhar uns trocos – para lhes dar uma relevância qualquer.
Fui dar uma pescoçada na barraca do tal coordenador que questionava a legalidade do verdadeiro artesão estar lá. Fiquei pensando se não haveria ilegalidade na atividade do tal coordenador, que, talvez, desrespeitaria a legalidade a produzir produtos que oferecem potencial risco à saúde pública sem as devidas licenças. Como não sou galo de briga deixei barato; fui comer um pastel e tomar um suco, de boas com a vida, com a minha patroa – calma lá, patroa porque manda em mim – e com minha neta. Estava lá, repito, de boas no sabadão quando chegou uma menina – lembrem-se que todos os mais novos são meninos e meninas – e me avisou que o tal coordenador havia chamado a polícia para exercer algum tipo de violência contra o menino artesão. Não sou galo de briga, mas o mundo ainda não me transformou em galinha morta. Vesti minha máscara de durão e comprei a parada.
Fui direto para a barraca – é eufemismo, na verdade o menino coloca suas pulseiras e brincos e pingentes e colares e quetais numa mesa pequena. Fiquei esperando. Chegaram os agentes de segurança pública (posso perguntar o que estavam fazendo lá?) acompanhados do tal coordenador. Para bem da verdade, os agentes foram muito educados e tentaram entender o que é que estava acontecendo. O menino artesão da barraca ao lado da do menino em questão já foi logo dizendo que o menino que estava sendo abordado tinha todo o direito de estar ali, contando aos agentes de segurança pública tudo que expliquei acima. Entrei definitivamente na fita. Conversei – velhos são melhor ouvidos (ou respeitados) pelos agentes públicos – com os dois agentes através dos quais o tal coordenador queria promover alguma violência contra o menino artesão e expliquei o absurdo da situação. Me ouviram e ouviram o menino ao lado. Não importunaram o menino artesão.
Com tudo isto – e ainda não residiu em tudo isto o mal maior, que explicarei depois – me senti profundamente assustado e agredido com os caminhos que o distrito escolhe para si. Moro desde pequeno em Campinas e sempre vi Barão Geraldo como um lugar especial, onde as pessoas escolhem caminhos melhores para construir suas vidas. Por isto escolhi morar aqui. O que me assustou é ver que as pessoas que aqui estão talvez estejam entregando-se a uma cretina aceitação de uma inevitabilidade pela qual não existem mais lugares seguros para os que pretendem um pensar e um viver diferente. Não! Não existe esta inevitabilidade! Devemos permitir o diferente! Não só! Devemos promover o diferente! Devemos trabalhar para que o mundo seja diferente desta maldade que é intrínseca ao modelo que exigem que sigamos. Devemos defender os cabeludinhos, os barbudinhos, os que, de tão violentados, acabam por não mais encontrar forças para cerrar fileiras. Cerremos fileiras junto a eles, porque eles são, no fundo, os carregadores de uma tocha que não podemos deixar que se apague.
Disse que em nada do que estava acima resumia o maior mal que vi hoje. Digo agora sobre este mal maior. O menino artesão tem uma enteada de seis anos. A menina sofreu – muito – ao saber que a polícia estava abordando seu padrasto. Sofreu mais ainda por saber aquilo que já sabia: seu padrasto – que cozinha e faz brinquedos para ela – nada fazia de errado. Não conseguiu sorrir durante o espetáculo dos palhaços que aconteceu pouco depois.
Fico a me perguntar: é para isto que vivemos? Para que a enteada do artesão não sorria ao ver o palhaço porque seu padrasto artesão seria chutado da feira por querer vender o fruto de seu trabalho?
Pensei em cortar os pulsos. Não o fiz porque sou velho e os velhos são mais fortes que os jovens.
Para você, triste e infeliz coordenador de uma feira de artesanato que pretende que seja burguesa: não sei quais livros leu ou que músicas ouviu, mas sugiro as audições de minha tenra adolescência, vá ler Herman Hesse e, definitivamente, toca Raul!

Quando nos mudamos para Barão Geraldo, procurávamos mais que uma transferência de endereço. Barão sempre esteve, desde n...
09/08/2016

Quando nos mudamos para Barão Geraldo, procurávamos mais que uma transferência de endereço. Barão sempre esteve, desde nossa juventude, presente em um imaginário que construímos para atender um ideário propositivo de mudanças para o modo através do qual o humano se relaciona com o mundo. Este ideário foi sendo construído ao longo de anos, não é coisa que já nasça pronta, nem coisa que um dia deva acabar de ser construída. Economia local, pensamento global, baixa pegada ecológica, baixo perfil de consumo, ideias que encontram, como resultados de suas funções, a preferência por produtos que não contenham obsolescência programada, a alimentação orgânica, o uso de meios alternativos ou coletivos de transporte, a troca de informação, o contato com culturas diferentes, o respeito a formas diferentes de pensar e a produção de bens de consumo em pequena escala que contenham tanto valor cultural agregado que não sejam facilmente descartados.
É claro que, como para todos os ideários e imaginários, o que se encontra como resposta do mundo real não é a completude que satisfaça a expectativa. Mas em boa parte a vida em Barão pode atender estas expectativas. E, em outra boa parte – talvez a melhor -, o atendimento destas expectativas depende de, além de colaborar com a mudança do entorno, procurarmos aqueles que já estão se dedicando a mudar o entorno.
Nesta busca do atendimento às expectativas, andava eu meio injuriado com as cestas adaptadas para bicicletas, principalmente porque prefiro fazer compras de bicicleta a fazê-las de carro. Cestas de madeira, de plástico e de papelão me incomodavam, seja pela precariedade do suporte ou pela feiura intrínseca. Antes que achem que é frescura, permitam-me dizer que a beleza é fundamental, mas não aquela beleza inventada em grandes marcas ou vendida em centros de compras, a beleza do simples, do funcional, onde a forma encontra o conteúdo e a praticidade.
Foi então que me deparei com o Cisco, artesão no mais profundo sentido da palavra, que foge do estereótipo atual, estereótipo moldado por tiazinhas que não têm nada a fazer e, pela percepção – mesmo que inconsciente - do vazio intrínseco às suas vidas, compram revistas de artesanato pelas quais confeccionam cópias fáceis e, perdoem-me o pleonasmo, sem criatividade. Cisco vive do artesanato; poderia-se até dizer que vive de forma artesanal. Fez escolha. Uma escolha difícil, sobre a qual reside uma vastidão de implicações e dificuldades: a pouca grana; a difícil relação com lojistas, que, via de regra, vêem no artesão alguém a ser sujeitado a uma remuneração humilhante – resquício ainda das relações escravagistas que dominaram a produção brasileira; a dificuldade para a divulgação de seu trabalho; a preferência de coordenadores (donos talvez seja melhor palavra) de feirinhas por madames que fazem cópias de revistas, na expectativa que seus círculos de relacionamento agreguem clientes para feiras; por aí vai.
Foi o Cisco quem resolveu meu problema da cesta de compras para bicicleta – cuja foto publico junto. É nesta procura por muitos Ciscos com suas muitas soluções criativas que deve residir parte da busca daqueles que compartilham imaginários e ideários como os nossos. É nesta saga que devemos continuar construindo nossos ideários e, derivados destes, nossos imaginários. É na transformação destes nossos imaginários e ideários em realidades que reside uma parte – ainda que pequena – da transposição de uma relação predadora entre os humanos e o mundo para uma relação mais harmônica.

09/08/2016

Deixando Campinas
Tecnicamente deveria dizer “deixando o centro”, principalmente por um motivo: Campinas, como qualquer grande cidade, é composta de várias regiões e populações diferentes. Exemplifico: alguém haveria de dizer que os defeitos do Cambuí são os mesmos que os da Vila Padre Manoel de Nóbrega? Ou que os defeitos da população do Gramado são os mesmos que os da do Santa Mônica? Sem julgamento de mérito, até por que eu não tenho o hábito de julgar os outros. Apenas lhes percebo os defeitos. Eventualmente, se conseguir achar alguma qualidade nos outros, até elogio.
Não caberia aqui uma descrição das várias regiões da cidade, até por que em algumas nunca fui. E olhe que rodei por esta cidade. Como morei muito em casas de aluguel, me mudei bastante. E aí convivi com gente de todos os tipos. Tá, conviver é exagero; afinal o bom vizinho é o vizinho morto, se bem que velhinhos são bastante toleráveis. Talvez por que a proximidade da morte os torne bons. Êpa! Perigosa esta linha de raciocínio, será que o humano bom é o humano morto? Se é que os biomas pensam, assim devem pensar.
Para voltar à ideia original, voltemos aonde não voltamos, posto que aqui nunca moramos.
Por uma destas raras gozadas ironias da vida (não que as ironias da vida sejam raras, mas a maioria delas não tem nada de gozado para o protagonista, embora os espectadores costumem se c***r de rir das estrepadas em que os outros se enfiam), eu, que nunca dei muito valor à educação formal – e, por arrogância e preguiça para lidar com gente, admito, abandonei duas faculdades – acabei por me mudar, com a patroa, claro, para uma das maiores e mais importantes concentrações de acadêmicos do país. Não vou me estender sobre minhas críticas à educação formal, no formato que ela hoje tem, até por que deve ser bobagem mesmo – o meu ver, não a educação formal.
Aí viemos parar aqui, na Akademgorodok brasileira, onde barbudinhos e cabeludinhos pensam viver uma nova forma de viver, e há poucas coisas mais velhas que isso, pelo menos até se formarem e encontrarem o moedor de carne. Aí vão constituir família, financiar casa e carro, eventualmente vestir ternos todos os dias e envelhecer, como todo bom cristão. Boa parte deles vai incorporar o grande bando de filhos da p**a, e lá pelos quarenta e tantos anos esses uns tantos vão bater com os punhos fechados nos peitos estufados e bradar que já foram socialistas; alguns, pelo ritmo da carruagem, ainda vão ter tempo para ser contra a liberação da maconha.
Os motivos? Ah, os motivos… Como se tudo tivesse que ter motivo… No caso temos. E tanto os temos. Imprescindíveis. Se o leitor não se aborrecer poderá lê-los. Por que vou enumerá-los mesmo. Se quiser pode pular para o próximo parágrafo. Até por que, embora exista a vaidade em esperar que alguém me leia, não escrevo por maior motivo que não seja tentar me entender, e assim colocar as ideias em ordem. Ou talvez seja o inverso, colocar as ideias em ordem para assim me entender, e aí, se alguém me ler, sentir vaidade por que alguém me entendeu. Sei lá. Ah, sim, os motivos... Netos, claro, uma que já lê e um ainda na barriga. A que já lê ficou pertinho, o que já vem não terá o desprazer de encontrar os avós apodrecendo num sofá de uma sala de um apartamento. Poderemos ensinar a andar de bicicleta. Nos dias de hoje já é muito, tanto para a neta quanto para o neto. Ademais, morar no centro da cidade já havia se tornado um pé no s**o. Haja prédios! Queríamos de volta nosso horizonte que por anos esteve tolhido. Só dois motivos? Não disse que eram tantos, disse que eram tanto. E como são! Há motivos melhores que netos e horizonte? E não são uma só coisa?
Assim vamos nos acabar em Barão Geraldo. Pela primeira noite já deu para sacar a pegada. Até voltei a escrever.

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Campinas, SP

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