24/02/2023
A preservação da paisagem e a conservação da natureza no III Reich
O objetivo do artigo é discutir as políticas de preservação da paisagem e de conversação da natureza durante o regime nazista (1933-1945) na Alemanha, quando o III Reich apropriou-se e transformou ideologicamente o ideário romântico de relações entre a natureza e a cultura. A política de conservação da paisagem e da natureza estava fundamentada na concepção autoritária de que a natureza era o lar (Heimat) da civilização germânica. O regime nazista produziu uma simbiose entre os conceitos de Landschaft e de Lebensraum, que se manifestava na divisão regional da própria Alemanha.
A partir do século XVIII, a Europa passou por um forte movimento de construção e afirmação das várias identidades nacionais. Para isto, uma poderosa retórica foi utilizada: a de que haveria uma forte correlação entre o caráter de um povo e de sua paisagem. No século XVIII este culto da paisagem como uma razão simbólica que definiria uma nação foi filosof**amente justif**ada por Herder, na poesia por Heine, nas artes visuais foi representada por Caspar David Friedrich e na música, já no século XIX, por Richard Wagner.
Além da paisagem, o nacionalismo romântico também se utilizou das características da geografia física das nações, como as montanhas, as florestas e os rios que transmitiam uma certeza de longevidade e permanência de uma nação, uma entidade orgânica, um território que não seria determinado pela história, mas, pela dádiva da natureza (ROLLINS, 1997).
Spender (1946), comentando o uso indiscriminado no nazismo da paisagem natural como símbolo ideológico daquela ideologia, afirmou que a Alemanha já era um país todo impregnado por uma “topografia nacionalista”, em que a noção de proteção da natureza (Naturschutz) e a proteção do lar (Heimatschutz) se fundiam em uma dimensão estética, na qual o local de nascimento, com sua região natural, era o verdadeiro lar da comunidade.
Assim,, o nacional-socialismo utilizou as noções advindas do nacionalismo romântico para com isso recriar a noção de povo (Volk) enquanto uma entidade que teria o direito natural de ocupar a paisagem (Landschaft), pois ela era a sua moradia (Heimat). Este foi um forte discurso para justif**ar ideológica e politicamente a expansão territorial do III Reich (1933-1945) e suas políticas de segregação e ordenamento territorial-racial.
Neste contexto, o objetivo deste trabalho é discutir brevemente as políticas de preservação da paisagem e de conservação da natureza durante o III Reich que estavam fundamentadas no sonho nazista de preservar a pureza ariana, ao mesmo tempo em que procurava implementar o antigo sonho do Reich de se construir um império alemão na Europa.
Historicamente, mesmo com a dissolução do Sacro Império Romano Germânico em 1806, ou mesmo no Segundo Império, após 1870, a Alemanha sempre teve o sonho de ser um império continental e marítimo1, muito antes de arriscar-se em aventuras expansionistas fora da Europa. Esta obsessão pelos domínios continental e marítimo era instigada pelo temor da ação geopolítica russa no leste europeu e nos Bálcãs mas, também, pela concorrência com a Inglaterra e a França.
Assim, a conjunção entre o território e a Nação alemã a partir de 1870, com a unif**ação nacional, foi marcada por uma tensão histórica que se tornou constante no imaginário alemão e nela o regime nazista se assentou ideológica e politicamente. Esta tensão foi um ingrediente importante para explicar a obsessão do regime nazista pela natureza, nela buscando os fundamentos para o comprometimento biológico do Volk alemão e de seus recursos com o Estado; de forma que o território, a paisagem e a natureza em conjunção, formavam o espaço vital (Lebensraum) da pureza racial alemã.
Historicamente, esta situação nos remete ao período de 1871 a 1945, que foi marcado por muitas rupturas que ocorreram durante o processo de unif**ação territorial alemã e que trouxeram sérios problemas políticos internos e externos à Alemanha, tais como a derrota e o colapso após a 1ª Guerra Mundial em 1918, com o “desastre” da República de Weimar, a perda da colônias alemãs na África, o fortalecimento da social-democracia e do comunismo e a crise no sistema de estados europeus no entre-guerras. Some-se a isto uma neurose da nação alemã, que se debatia com o problema da diversidade étnica, mas cujo ideal político era o de zelar pela pureza racial e ideológica do povo alemão.
Esta situação esquizofrênica gerou várias linhas de tensão e de conflito que Hanna Arendt, em seu livro Eichmann em Jerusalém, chamou de “ataque à dignidade humana”. Para o nazismo o espaço vital (Lebensraum) possibilitaria, ao mesmo tempo, a agregação do Volk alemão em torno do ideal da pureza racial cuja marca seria a conquista e o reestabelecimento de territórios anteriormente ocupados pelos antepassados teutônicos, com a expansão territorial interna à Europa, o que garantiria o poder continental alemão
Neste cenário, a ideologia nazista apelou para o uso estereotipado de elementos conceituais e simbólicos do romantismo, como a noção de sangue e solo, na qual a paisagem passou a ser apreciada como um símbolo místico que representava a união entre história e geografia na construção da identidade e da civilização alemã. Assim, o regime nazista defendia que o Estado-nação deveria ser o protetor da natureza que, por sua vez, era a casa, a moradia (Heimatschutz) da civilização alemã e o guardião de sua pureza (ROLLINS, 1997).
Para a elaboração de tais leis e políticas de proteção da natureza, o III Reich utilizou como model
Embasados neste bastião simbólico e de agregação social, o nacional-socialismo fomentou leis de proteção da natureza (Naturschutz), em que organizações não governamentais, fundadas na lógica romântica da comunidade, cuidariam da natureza em suas localidades e os governos locais e provincianos elaborariam políticas de conservação ambiental - as chamadas políticas de planejamento e conservação da paisagem regional (Landschaftspflege)
Ao inserir a discussão sobre a conservação da natureza e a preservação da paisagem na estrutura política do Estado Nazista, o III Reich não somente politizou e militarizou a natureza, mas tornou-a também um forte recurso ideológico para, com isto, cimentar a sua concepção de Volk, além de ser um critério que o diferenciava dos indesejáveis, particularmente judeus e eslavos.
Neste sentido, o III Reich inseriu uma política cultural em variadas escalas geográf**as,, que passavam a funcionar articuladamente do local para o global incluindo o nível regional, e nela a identidade nacional do Volk seria o produto de uma reflexão regional sobre as relações entre a identidade cultural e a paisagística, relação que redefinia o próprio sentido de Lebensraum .
Com isto, a política nacional entranhava-se na tessitura comunitária de tal maneira que o intelectual e o natural se confundiam e se dissolviam na política do Estado-Nação, pois Naturschutz e Heimatschutz se fundiam e davam suporte para a formação de uma identidade coletiva, organicamente articulada em um território específico
esta fusão ocorreu a partir do governo de Bismarck, sendo intensif**ada a partir de 1880, quando o discurso de pureza racial se fundiu com de pureza natural, resultando no conceito de Heimat, cujo viés político-ideológico é xenófobo e étnico-racial e que voltava-se inicialmente contra os poloneses e os eslavos, mas que ao longo dos anos passou a ser utilizado contra todos aqueles não arianos, principalmente os judeus. Se, por um lado o Heimat excluía, por outro, servia para aglutinar todos os considerados arianos. Ele constituía-se em um conceito que carregava um sistema de sentimentos, uma metáfora utilizada em todas as escalas geográf**as e que ligava o Volk às suas bases territoriais, sejam elas locais, regionais ou nacionais, de tal maneira que o mosaico de paisagens refletia a riqueza do Volk alemão, ungidos por uma mesma experiência, a da pureza natural.
Foi nesse contexto que a frase sangue e solo, cunhada no nazismo, signif**ava a defesa da pureza ariana e incluía também a natureza que os havia criado, de forma que com a defesa desta herança natural, a paisagem, o III Reich estaria defendendo o futuro e preservação da cultura ariana