24/07/2014
[Sobre despedidas]
Ontem ele veio aqui em casa. Senti-me sem graça por estar escutando aquela música que era tão de nós dois. Quando tocou a campanhia, troquei de música imediatamente, espero que tenha pensado que tocava por um acaso, assim, aleatoriamente. E não que eu coloquei para repetir pelo menos umas trinta vezes.
Por um minuto achei que fosse tirar a roupa. A roupa da vaidade, do orgulho, da teimosia. Pensei que me abraçaria, me jogaria
na cama e me diria o quão idiotas nós somos por jogar a felicidade no ralo.
- Vim buscar as minhas coisas. Sei que é um situação chata, mas estou precisando muito daquele meu livro da faculdade.
- Sim, claro. Vou buscar.
Términos são sempre terríveis. A gente jura que vai fazer de tudo para manter a amizade, mas depois qualquer mínima aproximação e o nosso corpo se retrai, como se nos avisasse: ei, comporte-se! Ele não é mais seu.
Coloquei as coisas em cima da mesa a fim de não dar brecha para um possível toque na pele. Ele olhou tudo minuciosamente.
- O que foi? Está conferindo? Acha que eu fiquei com alguma coisa?
Ele sorriu e disse:
- Não é isso. Eu só estou lembrando como essas coisas vieram parar aqui. Cada objeto tem uma história por trás.
Fechei os olhos. O que ele queria afinal? Termina comigo e depois vem com sessãozinha nostalgia?
- Você já está de saída? É que eu estava ocupada.
Id**ta. Por que eu disse isso? Não quero que ele vá de verdade, sei lá se volta. Ele vai pensar que eu tenho outra pessoa e vai ficar na defesa. Burra, burra, burra!
- Tudo bem. Qualquer dia desses nos falamos então.
Ouvi seus passos na escada. Despedidas nos aguçam os sentidos. Lembramos de todos os cheiros, todos os toques e a visão de cada pedacinho do corpo do outro. Corri para janela só para vê-lo uma última vez, mesmo que de costas. Pensei que ele ia se virar, mas entrou no carro e se foi. Lembrei do que ele me disse: "Qualquer dia desses nos falamos."
Qualquer dia desses é um eufemismo para nunca mais.