Na década de 1920, quando a rua Dias de Barros ainda se chamava rua do Curvelo, morou, no n° 51, o poeta Manuel Bandeira, naquela época autor de dois livros: A cinza das horas e O ritmo dissoluto. Tuberculoso e só, diariamente, na hora do almoço ele andava alguns metros na mesma calçada até chegar ao n° 43, onde a portuguesa D. Sara concordara em lhe fornecer refeições. Na casa de uma porta e duas
janelas, que hoje abriga um escritório de arquitetura, Bandeira e Ruy Ribeiro Couto, poeta e romancista de Cabocla, se fartaram com a culinária generosa de D. Anos depois, no discurso de recepção ao amigo na Academia Brasileira de Letras, relembraria Couto: "Passamos então nós dois, privilegiadas criaturas, a regalar-nos com a mesa que nos preparava D. Sara; e será negra ingratidão se um dia, em nossas reminiscências escritas, não levantarmos um monumento de glória àquelas peixadas, àquelas galinhas de cabidela, àquelas papas, àqueles bifes de cebolada com que a paciente senhora nos compensava da imensa pena de existir". Como se não bastasse, há a própria natureza, que, de certa maneira, contribuiu para a tradição da Dias de Barros. Naquele início de século, Manuel Bandeira dizia que a baía de Guanabara, vista dos fundos de sua casa, com o Pão de Açúcar sobressaindo, parecia uma "mesa posta". Era assim que ele percebia a paisagem. Vê-se, portanto, que a ideia de mesa neste trecho de Santa Teresa se instala da maneira mais natural possível: vem da magnífica paisagem da baía, que hoje se projeta nas varandas da Casa da Gabriela. A Dias de Barros tempera culinária com poesia. Não se pode esquecer que Bandeira, morador da rua de 1920 a 1933, compôs, na sua casinha, como ele chamava o andar térreo onde habitou durante 13 anos, o famosíssimo poema "Vou-me embora pra Pasárgada". O primeiro verso – conta ele em sua autobiografia literária – lhe saltara do inconsciente havia anos, mas foi na então rua do Curvelo que, um dia, o poema lhe veio completo, e seria publicado em seu terceiro livro, Libertinagem, de 1930. A Casa da Gabriela, situada entre a antiga pensão de D. Sara e o edifício que substitui a casa do poeta de Pasárgada, consolida a tradição da boa mesa na rua e reaviva a memória daquele que, dizendo-se "poeta menor", é dos maiores da literatura brasileira. Elvia Bezerra