11/03/2026
Muitas mulheres permanecem em relações violentas porque não têm para onde ir.
A moradia, nesse caso, deixa de ser apenas um bem material e passa a ser uma infraestrutura de autonomia. Sem ela, a saída da violência torna-se socialmente e economicamente inviável.
Nesta perspectiva, cabe considerar:
1. A casa não é apenas abrigo físico. Ela é estrutura de poder. Ela organiza relações de poder dentro da família e também na cidade. Quando a propriedade ou o contrato de aluguel está em nome do agressor, a mulher f**a submetida a uma forma de violência patrimonial. O espaço doméstico, então, deixa de ser neutro e passa a ser parte do mecanismo de controle.
2. Políticas habitacionais são ainda excludentes.
No Brasil, programas habitacionais raramente são pensados a partir de recortes de gênero ou raça. Algumas políticas tiveram avanços importantes, como a priorização da titularidade feminina em alguns casos, mas ainda ignoram situações comuns - como mulheres que precisam sair rapidamente de casa para escapar de violência.
3. A produção racializada da cidade.
Quando olhamos quem mais sofre com insegurança habitacional, aparece um padrão estrutural: mulheres negras e periféricas. Isso não ocorre por acaso. O processo histórico de urbanização no Brasil foi profundamente marcado pelo legado da escravidão, pela segregação socioespacial e por políticas urbanas seletivas, tornando a propriedade da terra e o acesso à moradia elementos estruturantes das desigualdades urbanas.
Violência contra a mulher está conectada à estrutura urbana, que por sua vez está ligada a processos históricos de desigualdade racial e econômica.
A impossibilidade de acessar moradia segura limita o direito à cidade e perpetua ciclos de violência.
Algumas perguntas emergem desta reflexão:
Como políticas habitacionais podem proteger mulheres em situação de violência?
Como a titularidade da moradia impacta relações de poder dentro do domicílio?
De que forma raça, gênero e território se combinam na produção da vulnerabilidade urbana?