16/08/2025
"Crônicas de um Pintor em Campo de Batalha (também conhecido como Obra)"
Acordei às 6h da manhã com a esperança de que hoje seria diferente. Que o pedreiro não ia jogar massa na minha parede recém-pintada. Que o eletricista não ia abrir buraco bem no meio do acabamento. Que o encanador… bom, o encanador é um ser místico, ninguém nunca viu, mas sempre deixa um cano vazando justo onde já passou tinta!
Cheguei na obra: o som de uma serra elétrica no volume "Show do Metallica". Poeira no ar, um cheiro suspeito vindo do banheiro químico, e o servente me oferece café numa tampa de lata de tinta — que aliás, ainda tinha tinta.
Começo a pintura na parede. Liso, bonito, acabamento de novela. Passa o pedreiro:
— “Ô pintor, só um minutinho, vou dar uma batidinha ali rapidão…”
Quando vi, parecia que caiu uma bomba. Reboco voando, minha tinta escorrendo lágrimas de decepção.
O eletricista chega, olha minha parede e solta:
— “Putz, esqueci de passar um fio aqui...”
Ele mete a talhadeira sem dó, como se fosse obra de arte moderna. Eu só observo, já sem alma, segurando o rolinho como quem segura um microfone no enterro da esperança.
E o gesseiro? Ah, o gesseiro é poético. Ele entra na obra, deixa um furacão de pó, vai embora e deixa um bilhete:
— “Desculpa aí, amanhã dou acabamento.”
E lá estou eu, no meio do caos, parecendo um guerreiro do apocalipse. Tinta na cara, massa na roupa, pincel pendurado na orelha e um leve trauma psicológico. Mas sigo firme.
Porque no fim do dia, alguém precisa salvar a obra da feiura. E esse alguém é o pintor — o artista, o guerreiro, o último a sair e o primeiro a ser culpado se algo der errado.
Obra é isso: um reality show sem roteiro, com muita poeira, pouca lógica e drama digno de Oscar.
E amanhã tem mais. Porque ser pintor é isso: viver perigosamente… com uma lata de tinta e um coração forte.