18/08/2020
Um texto da cabo verde island
São Nicolau - Cabo Verde
A ilha de São Nicolau situa-se a leste de Santa Luzia, por sua vez muito próxima de S. Vicente, e transporta o viajante ao encontro de heranças culturais do arquipélago, de paisagens singulares e de uma flora pontilhada de dragoeiros centenares. São Nicolau é também a ilha da nostalgia evocada por Cesária Évora, que nos canta a odisseia dos seus naturais emigrados por esse “caminho longe” para São Tomé.
A paisagem de São Nicolau é montanhosa e muito variada. O principal centro urbano é a Ribeira Brava ou Stancha, que deve o batismo às torrentes impetuosas da ribeira na época das chuvas.
Nas ruas estreitas, becos e praças da vila mantém-se a inconfundível arquitetura colonial, um sinal de identidade na caminhada da História. A Igreja Matriz e a antiga Sé são edifícios que não devem passar despercebidos ao visitante, o mesmo acontecendo com o Seminário-Liceu de S. José. Por esta instituição, que foi a primeira escola secundária importante de Cabo Verde e da Região Ocidental de África, passaram grandes vultos da brilhante cultura cabo-verdiana, na segunda metade do séc. XIX.
Para oeste, vigiando a cidade, encontramos a zona do Cachaço, envolvida em frequentes nevoeiros, na ausência dos quais se pode contemplar a deliciosa paisagem sobre a Ribeira Brava. Em dias límpidos é possível observar todo o arquipélago de Cabo Verde a partir de São Nicolau, do cimo do Monte Gordo, o ponto mais elevado da ilha (1312m), graças ao seu posicionamento relativamente a todas elas.
No Porto da Preguiça podemos contemplar o Forte do Príncipe Real aí erguido e que, para além de ter servido de proteção em relação aos inimigos do império português, homenageia Pedro Álvares Cabral que por aqui passou na sua viagem que resultaria na descoberta do Brasil.
Viajando para noroeste e não muito longe da Ribeira Brava vamos ao encontro da Fajã, terra natal do grande escritor Baltazar Lopes da Silva. É um local que se distingue pelas boas potencialidades agrícolas, visíveis nas plantações que cobrem toda a paisagem, e pelos imponentes dragoeiros, árvores raras e antigas, típicas das ilhas da Macaronésia, que integram a lista vermelha da IUCN, como uma das espécies em vias de extinção, mas que abundam nesta ilha, contando-se mais de cem exemplares, e, mais interessante, verif**ando-se um esforço de preservação desta espécie botânica através da instalação de alfobres.
Se o visitante continuar para sudoeste encontra a balnear vila do Tarrafal. É principalmente uma vila piscatória tornada famosa pelas suas praias (do Francês e da Luz) de areias medicinais ricas em titânio e em iodo. O lugar é recomendado para alívio em doenças dos ossos e das articulações e procurado por essa razão.
Os habitantes da zona do Tarrafal vivem sobretudo da pesca e da indústria de conserva do atum, atividades que proporcionam uma boa dinâmica comunitária, tendo laborado aqui até há pouco a que era considerada a melhor fábrica de conservas deste peixe em todo o Cabo Verde.
A pesca é, aliás, uma das ocupações principais de São Nicolau, ilha conhecida pelo seu mar riquíssimo, procurado como meio de subsistência e também com finalidades desportivas. De todo o mundo chegam a São Nicolau os amantes da pesca que se envolvem na procura do blue marlin e do espadarte, espécies muito frequentes nestas águas, principalmente nos meses de Maio a Outubro.
No caminho entre o Tarrafal e Ribeira da Prata, passada a praia do Barril, vale a pena parar em Praia Branca, um povoado gentil sobranceiro à praia do mesmo nome, onde, em junho, o S. João é festejado copiosamente, com desfiles e tambores. Bem como o tradicional salto da “lumnária” (fogueira), que empresta mistério à dança tradicional da “coladera”, em que o par se aproxima e choca num gesto sugestivo de namoro, a condizer com a subida do calor do verão que começa. Não faltará a incontornável cachupada, regada com grogue, tido por muitos como o de melhor qualidade em Cabo Verde.
Para norte, f**a a Ribeira da Prata. Percorrer esta distância vale a pena, principalmente para os amantes dos mitos etnográficos, porque ali existem os desenhos da Rotcha Scribida, que, não sendo embora mais que concreções sedimentares encrostados na rocha, passaram a integrar a aura de mistério que a tradição sempre lega. Mas sobretudo pela paisagem soberba e pela população verdadeiramente acolhedora que aqui encontramos.
Da Ribeira da Prata pode subir-se à Fragata no sopé do Monte Gordo, ponto privilegiado de observação com o mar a norte e a Fajã de Baixo a Sul. A subida, que demora mais de uma hora, transporta-nos por cenários idílicos dignos dos deuses. Aqui chegados, passamos a fronteira de volta a outros tempos. Tempos que nos fazem recordar as memórias dos antepassados contadas em pequenas estórias às crianças.
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São Nicolau - Cape Verde
The island of São Nicolau is located east of Santa Luzia, in turn very close to S. Vicente, and transports the traveler to meet the cultural heritage of the archipelago, unique landscapes and a flora dotted with centuries-old dragon trees. São Nicolau is also the island of nostalgia evoked by Cesária Évora, who sings to us the odyssey of her naturals emigrated by that “far way” to São Tomé.
The landscape of São Nicolau is mountainous and very varied. The main urban center is Ribeira Brava or Stancha, which owes its baptism to the river's impetuous torrents during the rainy season.
In the narrow streets, alleys and squares of the village the unmistakable colonial architecture remains, a sign of identity in the walk of History. The Igreja Matriz and the old Sé are buildings that should not go unnoticed by the visitor, as well as the Seminary-Liceu de S. José. For this institution, which was the first important secondary school in Cape Verde and the Western Region of Africa , great figures of brilliant Cape Verdean culture passed, in the second half of the century. XIX.
To the west, watching the city, we find the Cachaço area, involved in frequent fogs, in the absence of which you can contemplate the delicious landscape over the Ribeira Brava. On clear days it is possible to observe the entire archipelago of Cape Verde from São Nicolau, from the top of Monte Gordo, the highest point on the island (1312m), thanks to its position in relation to all of them.
In Porto da Preguiça we can contemplate the Forte do Príncipe Real built there and which, in addition to having served as protection against the enemies of the Portuguese empire, pays homage to Pedro Álvares Cabral who passed through here on his journey that would result in the discovery of Brazil.
Traveling northwest and not far from Ribeira Brava, we meet Fajã, the birthplace of the great writer Baltazar Lopes da Silva. It is a place that is distinguished by the good agricultural potential, visible in the plantations that cover the entire landscape, and by the imposing dragon trees, rare and old trees, typical of the Macaronesian islands, which are part of the IUCN red list, as one of the species in the process of extinction, but that abound on this island, counting more than one hundred specimens, and, more interestingly, there is an effort to preserve this botanical species through the installation of alfobres.
If the visitor continues to the southwest, he finds the seaside town of Tarrafal. It is mainly a fishing village made famous for its beaches (of French and Luz) with medicinal sands rich in titanium and iodine. The place is recommended for relief from diseases of the bones and joints and sought for this reason.
The inhabitants of the Tarrafal area live mainly from the fishing and canning industry, activities that provide good community dynamics, having worked here until recently what was considered the best cannery for this fish in all of Cape Verde.
Fishing is, moreover, one of the main occupations of São Nicolau, an island known for its rich sea, sought as a means of subsistence and also for sporting purposes. Fishing enthusiasts from all over the world arrive in São Nicolau to get involved in the search for blue marlin and swordfish, species that are very common in these waters, especially in the months of May to October.
On the way between Tarrafal and Ribeira da Prata, past Barril beach, it is worth stopping at Praia Branca, a gentle town overlooking the beach of the same name, where, in June, S. João is celebrated copiously, with parades and drums. As well as the traditional jump of the “lumnária” (bonfire), which lends mystery to the traditional dance of the “coladera”, in which the pair approaches and shocks in a suggestive gesture of dating, matching the rising summer heat that begins. There is no shortage of unavoidable cachupada, watered with grog, considered by many to be the best quality in Cape Verde.
To the north is Ribeira da Prata. Traveling this distance is worthwhile, especially for lovers of ethnographic myths, because there are the drawings of Rotcha Scribida, which, although being nothing more than sedimentary concretions encrusted in the rock, became part of the aura of mystery that tradition always bequeaths. But above all for the superb landscape and the truly welcoming population that we find here.
From Ribeira da Prata you can climb the Frigate at the foot of Monte Gordo, a privileged point of observation with the sea to the north and Fajã from Baixo to Sul. The ascent, which takes more than an hour, takes us through idyllic scenery worthy from Gods. Once here, we crossed the border back to other times. Times that make us remember the memories of ancestors told in small stories to children.
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