28/11/2025
*Desabafos*
Mãe,
Há uma semana que não te escrevo. Mas todos os dias me lembro de ti.
Todos os dias o meu cérebro insiste em não deixar o coração chorar.
Assim que penso em ti, ele teima em mudar o meu pensamento.
Eu não quero aceitar que partiste.
Dói. Dói muito.
Tudo à volta parece mentira.
Ontem, enquanto procurava umas fotos no telemóvel, apareceu esta. Foi no batizado do Tomás. Foi um dia feliz.
Quando pedi ao fotógrafo para tirar esta fotografia, foi para eternizar o nosso abraço.
Tu já estavas doente — tinhas cancro no intestino — mas não sabias. E eu não queria que soubesses.
Lembro-me de, naquela altura, estar cheia de medo de te perder.
Medo de deixar de te abraçar.
Medo de deixar de te ver.
Medo de deixar de te ouvir.
Medo de deixar de te ter.
Não te perdi há três anos; perdi-te agora.
Na verdade, não te perdi, apenas já não te tenho comigo todos os dias.
Tenho tantas saudades tuas.
Saudades que doem.
Saudades que fazem perguntar: porquê?
Porque é que chegou a tua hora?
Porque é que te foste embora desta forma, sem nos despedirmos?
Porque é que não te tenho aqui comigo?
Porque é que não me telefonas?
Porque é que não me ofereces a tua sopa?
Porque é que não fazes o meu bolo - o único que comia com prazer?
Porque é que não cuidas da Margarida?
Porque é que não dás as bolachas ao Tomás, as que ele te pedia sempre?
Porque é que não vamos mais à Santa Rita?
Porque é que não vou voltar a comer as tuas iguarias?
Porque é que não vou resmungar mais contigo?
Porque é que é tão difícil não te ter aqui?..
São tantos os "porquês". Mas o mais difícil de todos é este:
Porque é que não me ensinaste a estar sem ti?
💔